sábado, 12 de novembro de 2011

os pesadelos de Pacheco


Quanto à análise do movimento e da sua composição, é convenientemente simplista, rotulando os indignados apenas como os filhos confusos do BE e do MRPP, assim obliterando a que será porventura a grande fatia dos que apoiam e participam neste movimento: jovens que nunca aderiram a nenhuma força nem credo político e, despidos por isso dessas referências, improvisam um protesto para dar voz à sua indignação. Esquece, também, aqueles que, como eu, participando, nos revemos noutras forças políticas.

Este texto não passa de uma tentativa de simplificar, de procurar rotular o que é complexo e plurifacetado e, no processo, desvalorizar as motivações e aspirações dos manifestantes, reduzindo-os a um bando de "pequeno-burgueses" desinformados, cuja única preocupação é sacudir a água do capote.

Adoro a forma como PP, querendo insultar, elogia, ao acusar o movimento de abusar do "“já”, uma das mais adolescentes das palavras". Uma acusação estranha para quem foi parte activa nos movimentos mais radicais e imediatistas de sempre na política portuguesa, afinal foi um dos fundadores do PCP-ML, de inspiração chinesa, que pretendia, saltando qualquer etapa, a transição directa do fascismo para o comunismo! É uma acusação que mostra o seu profundo ódio a tudo o que é novo e lhe recorda como se tornou tão inexoravelmente velho.

A palavra, que nunca surge no texto, está presente em cada entrelinha: medo. Pacheco Pereira tem medo de um movimento que ameça o seu "staus quo", lembrando-lhe certamente a sua juventude e os ideiais que continua a esforçar-se por renegar em absoluto. E por isso o profundo desprezo e arrogância do intelectual do regime perante a populaça agitada.

PP termina o seu discurso com a mais assustada das frases: "na crise que vivemos é uma força com futuro e, quando (...) se juntar nas ruas às filas disciplinadas da CGTP, (...) então a coisa fia mais fino." PP sabe que isso já está a acontecer. Por isso t(r)eme.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

o sonho de Arafat


Quase vinte anos depois dos Acordos de Oslo, que Arafat assinou com Yitzhak Rabin, a retirada das forças israelitas da faixa de Gaza e da margem ocidental do Jordão continuam por cumprir, inviabilizando a criação efectiva de um Estado Palestiniano livre e independente. Pelo contrário, o Governo Israelita, aproveitando o facto de a atenção da opinião pública mundial estar virada para a crise financeira, tem mantido o cerco a Gaza e acelerado, nos últimos tempos, a construção de colonatos, como forma de tentar matar definitivamente o sonho de uma Palestina livre. O que os falcões militaristas que dirigem o estado de Israel ainda não perceberam é que, sem um estado palestiniano, não haverá paz. Mas, na verdade, o seu próprio poder interno depende, em boa medida, de um estado de guerra permanente, daí que a paz não esteja no topo das suas prioridades...

Arafat conseguiu atravessar essa fronteira simbólica e perceber, há muitos anos, que o único caminho para a paz era a coexistência. Teve a enorme coragem de levar a OLP a reconhecer o Estado de Israel, enfrentando a oposição dos sectores mais radicais.

Um homem corajoso, que sobreviveu a inúmeros atentados dos assassinos da Mossad, que lutou toda a sua vida pela libertação do seu povo, e que teve a sabedoria entender que a vitória só é possível trilhando os caminhos da paz. O sonho de Arafat continua e vai continuar a ser sonhado por todos os palestinianos.

não é o PCP que o diz

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

duas velocidades para o inevitável

Merkel e Sarkozy falam cada vez mais abertamente de afastar os países europeus mais pobres do Euro, criando uma Europa a duas velocidades. Os ricos dos Euro e as economias periféricas e dependentes.

Nada de surpreendente porque, ainda que partilhando a mesma moeda, é já essa a situação actual, com o seu núcleo duro de estados-directores que conduzem os destinos da União da qual são os verdadeiros beneficiários. O afastamento dos estados membros mais debilitados do Euro servirá apenas para acelerar a sua ruína sem que, com isso, esteja garantida a solidez da economia da França e da Alemanha, antes pelo contrário. Esta Europa, seja a uma ou a duas velocidades, assiste ao fim definitivo dos princípios sonantes, mil vezes repetidos, e de união e partilha de um destino comum, de forma solidária, entre as nações da Europa.

Mantém-se muito actual - talvez mais actual do que eu próprio esperava - o que aqui escrevi em Outubro de 2010. E republico-me: "parece que cada vez mais assistimos à criação do sonho hitleriano do "Grossesdeutsches Reich", hierarquizando as nações europeias sob a batuta do estado director.(...)Perante isto, estamos já, de forma absolutamente clara, no campo de uma estrutura de estado colonial. Com ou sem independência simbólica (que é a única que ainda temos). O sonho europeu de uma associação de parceiros livres está oficialmente morto. Mas o seu cadáver começa mesmo a cheirar mal."

Apesar do conjunto desconhecido de problemas e ameaças que trará, esta morte do projecto europeu, tem o aspecto positivo de ser o fim de uma ficção política e económica que é, neste momento, o grande obstáculo à superação da crise e ao desenvolvimento de uma perspectiva de progresso e desenvolvimento para as nações da Europa.

O fim do projecto europeu, que nas últimas décadas tem sido o desígnio e pedra de toque dos governos da Velho Continente, a razão das políticas, o fundamento dos sacrifícios, o monstro sagrado do discurso político, irá pôr seriamente em causa as elites políticas europeias. Poderá nessa altura, eventualmente estar criado o espaço para a realização de profundas transformações políticas, económicas e sociais. Quando tombar finalmente, e com previsível estrondo, o cadáver apodrecido desta União Europeia, será a vez dos povos europeus falarem e decidirem o novo rumo. E não será um minuto cedo demais!

cortar as amarras


Dito desta forma até poderia parecer uma ideia interessante, que terminasse, por exemplo, com a absurda situação do Director da RTP Açores para comprar uma esferográfica ter de pedir autorização a Lisboa. O problema é que, por trás desta aparência, do que verdadeiramente se trata é de poupar despesa ao Governo da República e apenas isso.

A prová-lo estão os cerca de 300 despedimentos previstos no ano de 2012 que irão desarticular toda a capacidade de produção própria da RTP, que é afinal a sua grande, senão única, mais valia. Despedimentos que vão afectar ainda mais duramente a nossa RTP Açores, cronicamente subdotada em termos de meios técnicos e humanos. Portanto, aquilo de que o Presidente da RTP falava ontem na Assembleia da República não era de autonomia para gerir os recursos que existem, mas sim de autonomia para gerir a total ausência deles. As RTP's regionais passam a ser livres de falir ou fechar portas, porque Lisboa lava daí as suas mãos.

Ou, então, terão de ser as Regiões Autónomas a financiá-las. Uma ideia que é, em múltiplos aspectos, perigosa:

Primeiro, o exemplo da relação de Alberto João Jardim com os média, e a tendência do nosso próprio Governo Regional para os tentar manipular e controlar, deviam alertar-nos para a importância existirem órgãos de comunicação social independentes do poder regional. Uma questão que é fulcral para a Democracia nas ilhas.

Segundo, nesta questão como em tantas outras matérias (até nas evacuações médicas da Força Aérea!), o Governo da República vira cada vez mais as costas aos Açores, negando-se a cumprir as suas obrigações constitucionais. Faz lembrar políticas antigas em tempos de crise, com o abandono de colónias e territórios à sua sorte, para concentrar os recursos na metrópole. O Governo do PSD/CDS-PP esquece-se que a unidade nacional depende justamente do cumprir destes compromissos e que ninguém sabe muito bem onde nos pode levar esta política de cortar as amarras com os Açores.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

gestão orçamental comparada

blá blá autonómico


César critica, e bem, a forma como o actual Governo da República tem asfixiado a nossa autonomia financeira, violando a Constituição e o Estatuto Político-Administrativo.

Mas esquece-se de dizer como o anterior Governo, do seu próprio partido, também ele, fez exactamente a mesma coisa. O exemplo dos 5% da participação no IRS devidos às Câmaras Municipais açorianas é, neste contexto, particularmente infeliz, já que também o Governo de José Sócrates sempre se recusou a transferi-lo.

Mas a questão é de fundo e os exemplos podem ser muitos. Ao subscrever o pacto com o FMI, ao aceitar a redução da diferenciação fiscal (que sujeita os açorianos a um duplo aumento de impostos), ao decidir abster-se no Orçamento de Estado, o partido de César, o PS, não teve qualquer problema em atropelar completamente o nosso estatuto Autonómico. Portanto, palavras destas, leva-as o vento.

poesia de homens simples

A recente morte de Joe Frazier, aos 67 anos, fez-me recordar a forma como derrotou Mohamed Ali num dos mais espectaculares combates de boxe de todos os tempos, que ficou para a história com o merecido nome de "the fight of the century",em 1971.

Frazier, defendendo o seu título de campeão, e Ali defrontaram-se em 15 assaltos. Frazier conseguiu superiorizar-se tendo levado o seu adversário ao tapete por uma vez e acabado por vencer aos pontos, naquela que foi a primeira derrota profissional de Mohamed Ali. Um combate verdadeiramente épico.

Mas mais do que um acontecimento, este combate tem uma história: As autoridades americanas nunca perdoaram a Mohamed Ali a sua amizade com Malcolm X e a sua ligação à Nação do Islão e, pior ainda, a forma arrojada como falava publicamente sobre uma América oprimida pela discriminação racial. Por isso, alteram subitamente a sua classificação militar e tentam enviá-lo para a Guerra do Vietname. Ali recusa, é afastado dos ringues e vê o seu título de campeão do mundo ser-lhe retirado administrativamente.

Este combate, que marca o regresso de Ali à ribalta, só é possível porque é o próprio Frazier que pede publicamente ao Presidente Nixon para deixar Ali regressar aos ringues. Ali nunca o esqueceu. "The world has lost a great champion. I will always remember Joe with respect and admiration." disse ao saber da morte de Frazier.

É esta nobreza que faz do boxe algo muito mais profundo do que um desporto. A grandeza do um contra um na sua forma mais pura, em que para se vencer um adversário não basta superá-lo, é preciso superar-nos a nós próprios, diz respeito ao que há de melhor na natureza humana. Violência? Não. Poesia.

Vale a pena ver:

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

escavar a riqueza

Gostei de ler hoje no Público o conjunto aprofundado de reportagens sobre o sector mineiro em Portugal, bem como as novas perspectivas para o seu crescimento, triunfalmente anunciadas pelo Governo.

Na verdade, o sector extractivo continuou sempre a ser importante enquanto exportador, pesando 3% a 4% do PIB. A Somincor (Sociedade detentora das minas de Neves Corvo), por exemplo, exportou, em 2010, 2,5 milhões de toneladas de cobre e 74 mil toneladas de zinco. E temos um potencial muito maior no nosso subsolo.

No entanto, aproveitamos pouco desta riqueza. Não só pelo que fica por extrair mas, sobretudo, por termos perdido toda a capacidade de transformar estes minérios, assim abdicando da maior fatia de valor na cadeia. O encerramento da Siderurgia Nacional em 2001, tornou-nos um país completamente dependente em matéria de transformação de minério metálico, e afectando assim também o sector mineiro que passou a exportar o minério em bruto, perdendo o país grande parte do valor acrescentado desta riqueza. Ficámos na mesma situação que boa parte dos países do terceiro mundo: exportadores de matérias primas baratas e completamente desindustrializados.

Portanto, do ponto de vista da economia nacional, só faz sentido abrir novas explorações mineiras se também criarmos a capacidade para o transformar, em vez de exportar em bruto. Estas novas concessões mineiras só fariam sentido no âmbito de um processo de reindustrialização e desenvolvimento da produção nacional.

Mas isso, isso, infelizmente, sabemos que este Governo não quer. Ao promover apenas a extracção com vista à exportação em bruto o que pretende é, mais uma vez, vender a baixo preço os nossos recursos. Não basta escavar a riqueza. É preciso aproveitá-la.

domingo, 6 de novembro de 2011

representantes do povo


Os deputados do PS grego quando impediram a consulta popular, em referendo ou eleições, não se importaram de abdicar do seu papel de representantes do Povo para assumirem a opção de representantes dos interesses do mercado.

Exactamente da mesma forma que o também PS (será coincidência?) português declara o seu apoio ao Orçamento de Estado, "cobardemente encavalitado numa abstenção", não por achar que essa é a vontade da maior parte dos portugueses, mas porque é desse mercado de interesses que tem de cuidar.

sábado, 5 de novembro de 2011

forma sem conteúdo

"Uma coisa é o sentido de voto e outra é o discurso." A frase de Francisco Assis à saída da Comissão Nacional que aprovou a abstenção no Orçamento de Estado resume bem a posição do PS.

Protestar e "dar combate político ao orçamento" mas, na hora da verdade, recolher-se às tábuas de uma envergonhada abstenção.

Os líderes do PS continuam a separar a forma do conteúdo na sua actividade política. Reduzindo o discurso à total inutilidade, acabam por esvaziar a democracia, que é, inerentemente, discursiva, argumentativa, e acabam com o que resta da credibilidade que os cidadãos eventualmente ainda lhes conferem. É justamente daqui que vem a decepção e a descrença em relação a estes políticos. É esta forma de fazer política, que continua a imperar na direcção do PS, que explica os seus históricos desastres eleitorais dos últimos tempos, bem como os que ainda se vão seguir.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

esta é a nossa cara

A fotografia desta manifestante anónima do movimento Occupy the London Stock Exchange, capturada pela Reuters e divulgada pelo Público, consegue, de certa forma, expressar muitas coisas sobre o que é este protesto global e quem são as pessoas que o movem.

Um traço comum em muitas destas manifestações, a máscara. Mas mais do que máscara que esconde, uma máscara que mostra. Mostra a despersonalização de quem foi alienado do seu direito à realização enquanto indivíduo, de quem se viu espoliado dos seus sonhos e da sua liberdade e reduzido a uma estatística, a um factor de produção, sem direitos nem personalidade. É, neste aspecto um bom retrato do anonimato forçado em que o mercado (também ele anónimo e sem rosto) nos afunda a todos.

Mas é também uma despersonalização de quem se encontra na nova identidade colectiva da multidão. Os 99%. A máscara, esta cara, outra cara - que importa? - de quem se sente irmanado no descontentamento e no protesto com milhões de outras caras em todo o mundo.

Os olhos, esses, olham para a frente, talvez sonhadores, mas bem abertos. Como se conseguissem atravessar a névoa diária de confusão e caos, a cacofonia das notícias e das declarações solenes. Como se derrubassem o muro mentiras que nos cerca há tanto tempo e vissem, límpido e luminoso, esse mundo novo que ainda vamos construir.

a pobreza em construção

Mais um estudo científico veio recentemente a público demonstrar uma realidade que no fundo já não nos surpreende: um em cada três açorianos vive em condições de pobreza.

Suspeito sempre destes limiares de pobreza, que são apenas fronteiras numéricas e abstractas, porque não levam nem podem levar em linha conta a complexidade das situações de vida de cada um. Depois, as noções do que é que é essencial à sobrevivência e de quanto custa vão, elas próprias, progredindo. E em tempos como os que vivemos, desconfio que há mesmo muito mais gente nos Açores a passar por sérias dificuldades, ainda que além da charneira matemática da pobreza.

Mas é, apesar de tudo, um indicador que não pode ser ignorado por quem decide nesta terra, porque revela o fundo do problema que atravessa a nossa sociedade: é que por mais apoios sociais, subsídios, benefícios e prestações que se criem e se distribuam, continua a faltar a pedra de toque da integração de qualquer indivíduo na sua comunidade: o trabalho e o seu rendimento, que deviam garantir a todo o cidadão os meios para a uma sobrevivência condigna.

E junto, um indicador também interessante, recolhido pela Comissão Parlamentar que há algum tempo atrás analisou a aplicação do Rendimento Social de Inserção nos Açores: 3419 beneficiários desta prestação, 18,7% do total, efectivamente trabalham, só que não ganham o suficiente para assegurar a sua sobrevivência e as das suas famílias, dados relativos a 2010.

Temos um problema de emprego que falta, e de rendimentos que são insuficientes. E, por muito necessário que seja cumprir os pactos com o FMI, as medidas de austeridade não vão melhorar em nada esta situação, pelo contrário. Como estaremos no fim de 2012?

Muita desta nova pobreza liga-se, nos Açores e na nossa ilha, à situação dramática das empresas de construção civil.

A construção é um sector que tem um impacto significativo em toda a atividade económica. Absorve muita mão-de-obra não qualificada, dá trabalho às empresas locais e foi sempre estimulada pelo próprio sector bancário, que se envolve em todo o processo, emprestando ao dono da obra, ao empreiteiro e até ao pequeno subempreiteiro, ganhando sempre, em toda a escala.

Mas, a cereja no topo do bolo, é que a construção fornece belas obras, que permanecem à vista de todos como permanente e sólida propaganda eleitoral, para os governantes inaugurarem. Assim, não é de estranhar que, ao longo das últimas décadas, tenha sido a receptora do grosso do investimento público e que dele dependa quase em absoluto.

Paradoxalmente, os trabalhadores da construção foram sempre dos socialmente mais desconsiderados. Lembro-me de os meus pais me dizerem: “se não estudares, vais acabar a trabalhar nas obras”, como um pesado estigma social de que era preciso fugir. E, na verdade, estes são dos trabalhadores menos qualificados, com piores remunerações, com menos condições e maior precariedade laboral. No entanto, foram eles que edificaram a nossa recém-encontrada (e agora recém-perdida) prosperidade.

No caso do Faial, a construção desenvolveu-se, e bem, fruto dos necessários investimentos na reconstrução do parque habitacional. Mas deixou-nos abraços com um enorme conjunto de pequenas empresas e muita, muita mão-de-obra, inteiramente dependentes do investimento público, que a obra do porto, por si só, não consegue naturalmente absorver e que vêem o futuro com compreensível apreensão.

A euforia económica em Portugal, mas também nos Açores, alimentou-se durante longos anos sobretudo de betão. Este modelo de desenvolvimento artificial permitiu durante uns anos disfarçar alguns dos nossos problemas estruturais. Agora, tudo mudou. A torneira do crédito fechou-se. Acabaram as grandes obras públicas. Acabou-se o crescimento à força de betão.

Mas ficamos com um gravíssimo problema para resolver: que fazer, no imediato, aos milhares de açorianos que dependem deste sector? Para esta pergunta, não há certamente nenhuma resposta simples e fácil. Mas a solução terá sempre de passar pela ruptura com um modelo de desenvolvimento que há muito tempo mostrou ser insustentável.


artigo publicado no Jornal Incentivo
4 Nov 2011

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

para que serve o PS?


Após muitas hesitações, o PS afinal vai abster-se no Orçamento de Estado.

Depois de ter passado por todas as posições possíveis, desde o aprovativo "há 99,99% de probabilidades de o PS aprovar o Orçamento.", ao radicalismo oposicionista do "este é um orçamento contra o país!", o PS afinal vai refugiar-se nas meias tintas duma indefinida abstenção.

Os socialistas continuam claramente prisioneiros da herança de José Sócrates e do acordo com o FMI que subscreveram, sem qualquer vontade ou capacidade de saírem do pântano ideológico neoliberal de fachada humanista para onde se arrastaram. Não sendo nem esquerda, nem direita, nem contra, nem a favor, a abstenção fica bem a esta direcção do PS.

Seguro, esse, continua sem ver os erros do passado nem as asneiras do presente, sem ouvir o clamor do descontentamento e do protesto dos portugueses e, como "o PS não é um partido de protesto", sem vontade de tomar qualquer posição clara, limitando-se a ficar à espera que o poder rotativo lhe volte a cair nos braços. Lamentável!Link

a chantagem do Euro (actualizado)


Ao mesmo tempo que comete um estrondoso suicídio político em que afunda também o Pasok, Papandreou mostra a todos os gregos e a todo o mundo que, nesta moderna Europa democrática, já nada resta das soberanias nacionais e do direito de cada povo decidir sobre o seu próprio destino.

É mesmo difícil chamar democrata a esta lógica da decisão ser demasiado importante para ficar na mãos do Povo, não vá o povo ter a veleidade de decidir contra o que mandam os patrões Merkel e Sarkozy.

a chantagem do Euro

Afinal a pergunta do referendo grego foi escrita pela Alemanha e pela França colocando a chantagem europeia com toda a clareza: ou aceitam o empobrecimento e o saque aos recursos do país através de um novo plano de austeridade, ou são afastados do Euro.

Facilitam assim também a vida a Papandreou acentuando a dramatização em torno do referendo que, originalmente era só sobre o novo plano de "ajuda", mas que passa a ser sobre todo o processo de integração europeia. E colocará a questão ao Povo Grego como uma escolha entre a miséria e o caos. Nas actuais condições, este referendo é como pôr perus a votar sobre o Natal. Perdem de qualquer forma.

Fica bem à vista a dimensão da solidariedade desta Europa: os estados-membro só interessam enquanto mercado e para acrescentar dimensão à economia das potências directoras. A este tipo de relações económicas chama-se colonialismo.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

cumprir o juramento

O descontentamento dos militares cresce, anunciando uma importante e significativa manifestação pública, mesmo desafiando o parecer do PGR, no próximo dia 12 de Novembro. Anotem a data.

Sim, a base do protesto são sobretudo as suas próprias reivindicações socio-profissionais, mas declarações de vários dirigentes associativos permitem perceber em que medida os militares são, e se sentem, cada vez mais, intérpretes de um descontentamento que atravessa toda a sociedade. Não assitirão passivamente ao desmoronar do Portugal do pós-25 de Abril e do próprio regime democrático, nem ao sacrifício da independência nacional.

E vale a pena lembrar as palavras do seu juramento: "Juro, como português e como militar, guardar e fazer guardar a Constituição e as leis da República, servir as Forças Armadas e cumprir os deveres militares. Juro defender a minha Pátria e estar sempre pronto a lutar pela sua liberdade e independência, mesmo com o sacrifício da própria vida." Não acredito que o deixem por cumprir.

gostei de ler mas não percebi

Pedro Gomes - Açoriano Oriental 02/11/11
Sobre o Pacto com o FMI e a potencial obrigação de alterar o mapa autárquico:

"(...) a execução das medidas nele previstas ou que dele decorram, resulta da repartição interna de poderes decorrente da Constituição e dos Estatutos de cada Região Autónoma. O Memorando não reviu a Constituição, nem pode ser utilizado como argumento para a adopção de medidas legislativas que ofendem competências regionais, constitucional ou estatutariamente fixadas, sob pena de inconstitucionalidade ou ilegalidade.
A situação de emergência nacional e de ruptura das finanças públicas não é argumento jurídico para que as competências das Regiões Autónomas sejam colocadas em causa, como sucedeu com a Lei da sobretaxa de 3,5% sobre o IRS que incidirá sobre o subsídio de Natal deste ano."


Então o PSD Açores agora já abdica do argumento da "emergência nacional" para sancionar o tranquilo espezinhar dos nossos direitos autonómicos pelo Governo de Passos Coelho? No fim de contas, será que é esta a posição oficial, ou os sociais-democratas dos Açores estão, como habitual, apenas a chutar para canto?

terça-feira, 1 de novembro de 2011

vai-te embora ó mestre

Tristíssimas das declarações do Secretário de Estado da Juventude, Miguel Mestre, que aconselha os jovens a saírem do país. Sobretudo é o reconhecimento que ele próprio e o seu Governo nada têm para lhes oferecer. Já sabíamos.

a força do betão

Foto de João Vasco
A situação do sector da construção civil nos Açores está a tornar-se dramática e a de muitos dos seus trabalhadores, verdadeiramente trágica. É o próprio Presidente da AICOPA que vem dar razão ao que escrevi, aqui mesmo, em Novembro de 2009, sobre os dias difíceis que já há muito se adivinhavam para este sector e, em consequência, para uma fatia significativa dos trabalhadores açorianos.

A construção é um sector que acaba por ter um impacto em toda a actividade económica das ilhas. Absorve muita mão-de-obra não qualificada, dá trabalho às empresas locais (trabalhos especializados, materiais de construção), é estimulado pelo próprio sector bancário que se envolve em todo o processo, emprestando ao dono da obra, ao empreiteiro e, até ao pequeno subempreiteiro, e, cereja no topo do bolo, fornece belas obras para os governantes inaugurarem, que se permanecem, à vista de todos, como permanente e sólida propaganda eleitoral.

Assenta naquela mesma visão simplista e distorcida do desenvolvimento regional que levou à construção das Portas do Mar ou de um casino em Ponta Delgada. Baseia-se num modelo de desenvolvimento artificial, sustentado pelo crédito sem sustentação, que permitiu disfarçar alguns dos problemas estruturais da economia açoriana. As construtoras tornaram-se das maiores e mais lucrativas empresas da Região, ao mesmo tempo que os seus trabalhadores eram dos pior remunerados, com menos condições, com mais precariedade.

Tudo mudou. A torneira do crédito fechou-se. Acabaram-se os dias do desenvolvimento económico à força de betão. Mas ficamos com um gravíssimo problema para resolver: que fazer, no imediato, aos milhares de açorianos que dependem deste sector? E para isso, não há nenhuma resposta simples.