terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Velas

Atravesso a pé a Vila das Velas, quase de ponta a ponta, às nove e meia da manhã e no meu caminho não me cruzo com ninguém. Nenhum peão, ninguém à janela ou a uma porta a quem dar os bons-dias. Dois ou três carros apenas na manhã molhada. E não consigo deixar de sentir a tristeza muda deste deserto.

Com as neblinas permanentes, com a chuva quase contínua durante seis meses, com os dias cinzentos e molhados, é possível lidar. Com este vazio desolador, não.

A desertificação é dura nestas ilhas. A lenta agonia da agricultura, abrandada à força de subsídios para não produzir, esvaziou lentamente as freguesias rurais. A mudança de gerações ditou também a mudança de profissões, empurrando os mais novos, os que estudaram, para fora da ilha e toda a gente para os “centros” urbanos. E digo “centros” entre aspas, porque não se entende um centro que perdeu a periferia. Também aqui foi assim: depois de fechar a cooperativa fechou a escola, depois da escola fechou o clube e depois do clube fechou a casa do povo, até se reduzir a freguesia a um café, se tanto, e alguns velhos que teimam em agarrar-se à terra de que sempre tiraram o sustento, por teimosia ou porque não sabem fazer outra coisa. Esta não é uma história só de São Jorge. Longe disso.

A economia de mercado – estranho mercado este, em que quem compra e quem vende não se olha nos olhos, não se conhece, nem se confia… – trouxe a obsessão da grande escala. Como se a carne, o queijo ou o leite só valessem a pena quando produzidos aos milhões e quem tem pouco para vender, tem sempre de vender barato e estender a mão ao subsídio, que chega quando chega, se não chega atrasado. Ideias e políticas trazidas lá do distante centro da Europa do poder e do dinheiro. Longe, muito longe, dos Açores que os eurocratas não conhecem nem entendem.

E as gentes vão-se como sempre foram, atrás do trabalho onde o houver, atrás do dinheiro que se puder. Porque aqui não encontram nem um nem outro. E os Topos, Nortes e Beiras perdem muito mais do que as gentes, perdem a alma.

Porque estas paisagens estonteantes, esta natureza agreste e indomada, só fazem sentido com o seu contexto humano, paralelo ou contraditório: a comunidade. Ilha. Abrigo. Companhia. Apoio e partilha da adversidade comum. Como os dez passageiros deste navio em que agora embarco, que se sorriem e se saúdam e comigo se preparam para enfrentar a inclemência de Janeiro, canal de São Jorge a fora.

Sem isto, sem esta comunhão e humana partilha da dureza da vida atlântica, o que resta é igual à solidão dos últimos instantes dum afogado. Sem estas jangadas humanas, que geograficamente são ilhas, somos todos náufragos, fragmentos de vida frágil num meio hostil, num elemento que só coletivamente conseguimos fazer nosso. Que tristes deviam ser os Açores quando ainda não tinham gente. Começa a chover quando largamos o cais das Velas. E pergunto-me que tristezas trará ainda o futuro a estas ilhas.
Texto publicado no Jornal O Breves

estoirou

O Banif Açores pediu a insolvência da Castanheira e Soares. O tal banco, que já foi BCA, que até já foi público, pertencendo à Região, que iria ajudar a sustentar o desenvolvimento dos Açores tem agora outras prioridades. O tempo das preocupações sociais com as muitas centenas de empregos que dependem da Castanheira e Soares já lá vão. A questão agora é o lucro puro e simples dos seus accionistas. Foi isto que ganhámos em privatizá-lo.

Quanto à construtora, a verdade é que, como todas as outras, sempre se agarrou à dependência total do investimento público e à política do betão, que incentivaram e da qual foram, até tempos recentes, grandes beneficiários. Igualmente, o caso nebuloso da Escola Profissional de São Jorge, que a justiça tarda em aclarar, associado à recusa de intervenção por parte do Governo Regional, só podiam dar nisto. 

Como escrevi aqui, o tempo do betão acabou. Governo, Câmaras e Freguesias paralisaram todos os seus investimentos. Começou o tempo da explosão das grandes firmas empregadoras açorianas. Que efeitos é que isto terá em ilhas como São Jorge ou Flores?

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

era uma vez meia hora

O acordo recentemente assinado na concertação social entre alguns dos parceiros sociais marca de forma incontornável toda a atualidade nacional. Nos dias que precederam este acordo, as reportagens, os diretos, os debates e comentários, as declarações formais e os ditos de pé-de-microfone sucederam-se, abafando toda a restante atualidade política nacional e servindo aos portugueses uma determinada “narrativa” do acordo e dos seus conteúdos. Mas, a verdade é que os frenesins mediáticos raramente prestam um bom serviço à informação da opinião pública. Este foi nitidamente o caso.

Os técnicos de comunicação do Governo souberam gerir magistralmente o processo de negociação, misturando habilmente os silêncios com as declarações dramáticas, alternando protagonistas, ora o Secretário de Estado, ora o Ministro, ora o próprio Passos Coelho, e até o próprio Presidente da República, que veio apelar a um entendimento entre patrões e trabalhadores. Tudo sabiamente orquestrado para nos preparar para o pior, imprimindo na nossa mente a ideia de que era inevitável todos trabalharmos mais para ganharmos menos e que enormes desastres esperavam Portugal caso assim não fosse.

Seguiram os manuais. Como em qualquer negociação onde se pretende obter vantagem o primeiro passo é o de intimidar o adversário, montaram o embuste da imposição de mais meia hora diária de trabalho não remunerado. O Primeiro-ministro defendeu encarniçadamente a ideia. Com dramatismo pesaroso e pose estudada afirmou que era essencial para a produtividade, que sem esse acréscimo não haveria crescimento e nos afundaríamos para sempre no abismo negro da crise.

É pois, com um país assustado, e preparado para o pior, sempre de olho na televisão, suspenso de cada notícia, que nos anunciaram, com o triunfalismo de um final feliz à Hollywood, que estávamos salvos: saía fumo branco da concertação social! Havia acordo! E, afinal, aquela terrível meia hora de trabalho, que ocupara todas as atenções e preocupações dos média, não era assim tão inevitável nem essencial e fora abandonada.

Foi um Passos Coelho sorridente e vitorioso que assinou o documento e proferiu palavras solenes, como lhe competia. Da parte das confederações patronais, o contentamento também não era disfarçável, pois mesmo sem a meia hora, tinham conseguido a redução das férias, feriados, horas extraordinárias, despedimentos mais fáceis e baratos e ainda a possibilidade de alterarem a seu bel-prazer os horários de trabalho, entre mais algumas vantagens... A negociação correu-lhes, como previsto, muito, muito bem.

Apenas do lado da UGT, se sentia alguma incomodidade. Assistimos à pequena comédia de ver João Proença tentando pôr-se em bicos de pés (o que, com a sua silhueta, convenhamos, não é fácil!) para parecer mais importante enquanto nos afirmava, afogueado mas cheio de si, que fora por causa da UGT que a temida meia hora de trabalho desaparecera. E isso é que era importante. Conseguiu até arranjar mais um incidente, insultando a CGTP, que recusou participar na farsa. Tudo para dispersar a nossa atenção dos conteúdos-a-letra-pequena do acordo.

É assim que se constrói uma estória, uma narrativa política, simples, digerível, comentável no café com os amigos, que se auto-reproduz, espalhando uma determinada visão dos acontecimentos, selecionando alguns factos e ignorando outros. O lamentável episódio da meia hora extra de trabalho nunca passou disso.

Uma estória que foi útil ao Governo e aos patrões para tentar acalmar a inevitável contestação que o resto do acordo vai gerar. Mas também uma história que é útil à UGT, que precisa de pequenas e aparentes “vitórias” que lhe dêem uma notoriedade que possa disfarçar a rapidez e facilidade com que quase sempre cede na defesa dos interesses dos trabalhadores. 

Convém dizer que, no fim de contas, a queda da meia hora suplementar fica a dever-se, sobretudo, à grande luta que os trabalhadores e a CGTP têm desenvolvido contra o aumento do horário de trabalho, mas isso de forma alguma apaga os prejuízos para quem trabalha.

Caiu a meia hora mas fica por reconquistar muito do que tinha sido alcançado ao longo dos últimos cinquenta anos: o direito a um horário de trabalho estável, que permita que os trabalhadores tenham vida pessoal e familiar, por exemplo.

Esquecido que em breve será este episódio, entre tantos outros que o telejornal diariamente nos serve, fica, para os que precisam de trabalhar porque não enchem a barriga com estórias, a realidade de um país mais injusto.

Texto publicado no Jornal Incentivo
27 Jan 2012

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

duas notícias

Os exageros do fanatismo troikista do Governo PSD/CDS levaram a que ficassem por gastar, no Orçamento de 2011, 876 milhões de Euros, o que demonstra não só como não eram inevitáveis os cortes brutais em todo o Estado, como a sua total inutilidade e até prejuízo, pelos efeitos que necessariamente têm sobre a economia.

Mas, mesmo na coluna ao lado, o reverso da medalha. Afinal, mesmo com todo este zelo de poupança, os mercados não se acalma e os juros da dívida pública batem novos máximos. Alguém ainda acredita que esta pressão especulativa sobre Portugal tem alguma coisa a ver com o que o nosso Governo faz ou deixa de fazer?

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

a esquerda mata e a esquerda esfola


É que o que o PS e o BE é questionam não é a inconstitucionalidade de cortar subsídios, violando o princípio do direito à remuneração e os direitos adquiridos, o que os motiva é a questão da desigualdade, pelo facto de o corte ser aplicado apenas aos funcionários públicos. Portanto, se fosse aplicado a todos os trabalhadores, não teriam qualquer problema com o OE. Assumem assim ambos que estão de acordo com os cortes salariais em nome da contenção orçamental e que subscrevem a política de empobrecimento dos trabalhadores portugueses e não conseguem entender que a batalha não é jurídica, é política.

O Tribunal Constitucional é um órgão político, com juízes nomeados pelos partidos, já antes decidiu a favor de outros cortes, e não vai agora com certeza contradizer-se. Este pedido, como foi feito, não é só inútil, como é como nocivo, pois vai, em última instância, legitimar o Orçamento. Com uma oposição assim pode Passos Coelho dormir descansado!

O PS, esse, já sabíamos que as suas concepções liberais assentam na desvalorização do trabalho, agora a atitude do BE é novidade e tenho dúvidas que os seus próprios militantes possam concordar com isto. Até onde irá a desorientação do directório de Louçã?

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

os revolucionários da treta

"Os revolucionários da treta estão sempre à frente das massas: se se convoca uma manifestação, dizem que isto não vai com manifestações. Só com greves. Se um sindicato convoca uma greve, isto não vai lá com greves sectoriais. Só com greves gerais. Se os sindicatos convocam uma greve geral, isto não vai lá com uma greve geral. Só com uma revolução. E enquanto os trabalhadores protestam e lutam, os revolucionários da treta vociferam contra os sindicatos, não se manifestam, não fazem greves, e enquanto a revolução não aparece feita, inventam desculpas para não fazer nada."

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

desigualdade

Um estudo recentemente encomendado pela Comissão Europeia analisou a forma como têm sido repartidos os sacrifícios, em termos de perda de poder de compra, pelos diversos estratos sociais, em 6 países da União.

No caso português, em resultado direto das medidas de austeridade tomadas pelo Governo entre 2009 e Junho de 2010, os 20% mais pobres perderam 6,1% do seu poder de compra, enquanto os 20% mais ricos perderam apenas 3,9%!

Estes resultados não são, para muitos de nós, surpreendentes. Pelo contrário reconfirmam as suspeitas de muitos cidadãos em relação ao sentido das políticas dos nossos governos e demonstram a sabedoria do velho ditado popular “quem se lixa sempre é o mexilhão”!

De entre Grécia, Portugal, Irlanda, Estónia, Reino Unido e Espanha somos o único país onde isto sucede. Em todos os outros, foram os cidadãos mais abastados e não os mais pobres que tiveram de suportar maiores sacrifícios. Este exemplo, o Governo português – sempre tão bom aluno em questões europeias – não quis seguir.

O paradoxo é que a própria Comissão Europeia – a mesma que encomendou este estudo – não se cansa de elogiar a forma como Portugal tem imposto as medidas de austeridade. Então são todos os outros países que estão errados, apesar de terem melhores desempenhos económicos? Em que ficamos?

É importante notar que este estudo abrange o período de governação de José Sócrates e reflete os efeitos dos seus sucessivos PEC’s. Foi este agravar das injustiças e dos problemas do país, foram esta política e as suas consequências que ditaram o crescente isolamento do PS e que o levaram a sofrer, nas urnas, uma das maiores derrotas da sua história.

No entanto, o novo Governo, não trouxe, como os portugueses desejavam, uma mudança de rumo. Pelo contrário, Passos Coelho segue, na substância, a mesma política de agravamento da desigualdade social, sacrificando os pobres para poupar os ricos. A única diferença é que o faz de uma forma muito mais brutal e com muito menos pudor de o assumir, mas o rumo é o mesmo.

A crise está a ser usada para cavar ainda mais fundo o fosso das desigualdades e causar profundas mudanças na distribuição do rendimento nacional. O atual Governo, tal como o anterior, está a criar um país com uma pequena elite privilegiada, muito próxima do poder político do qual depende, assente sobre uma massa indiferenciada de trabalhadores empobrecidos. É um retrato do futuro que tem assustadoras semelhanças com o passado que deixámos a 25 de Abril de 1974.

Apesar do discurso inter-classista e socializante, a verdade agora comprovada pelos factos é que estes governos beneficiam sobretudo as classes mais privilegiadas. Objetivamente é para elas que governam. O que até nem é assim tanto de estranhar se pensarmos no que é dança de cadeiras entre cargos políticos e conselhos de administração de grandes empresas, nas trocas de favores, nas relações pessoais e até familiares que existem entre a elite económica e a camada superior do poder político. Os dirigentes do PS, PSD e CDS-PP ao agirem assim estão a defender o seu próprio interesse de classe, mas também privado e particular.

A desigualdade social converteu-se no principal problema estrutural do nosso país. A fatia da riqueza nacional que é retirada ao comum dos portugueses, revertendo para uma pequena elite privilegiada tornou-se verdadeiramente insustentável. Desde logo, a redução do poder de compra dos cidadãos atinge duramente as empresas e o emprego, reduzindo a produção nacional e acelerando a espiral do empobrecimento do país. Consequentemente, o peso destes “novos pobres” sobre os sistemas de proteção e segurança social aumenta exponencialmente, ao mesmo tempo que, como já hoje assistimos, a receita dos impostos cobrados pelo Estado, que incidem sobre o trabalho e sobre o consumo, começa a reduzir-se.

Mas as consequências deste estado de coisas vão muito para lá da frieza dos indicadores económicos. A desigualdade afeta a capacidade de acreditar nos valores do trabalho honesto e da integridade que acabam hoje em dia por nunca ser compensados; atinge a confiança no sistema político e causa o abandono abstencionista de cada vez mais cidadãos.

O que está em crise, verdadeiramente não são as contas públicas. É o próprio projeto, que nos une enquanto portugueses, de criarmos em conjunto uma sociedade justa e equilibrada que está ameaçado pela continuação destas políticas.

Artigo publicado no Jornal Incentivo
13 Jan 2012

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

a cara da direita

Portugal é o único país da Europa onde as medidas de austeridade têm um "efeito claramente regressivo", isto é: aprofundam a desigualdade entre os 20% mais ricos e os 20% mais pobres. E quem o diz é um estudo publicado pela insuspeita Comissão Europeia. Paradoxalmente o mesmo organismo que por diversas vezes tem elogiado o esforço levado a cabo pelo Governo português.

Este é, como sempre foi, o objectivo de PSD e CDS-PP, ampliar a fatia dos recursos nacionais que se destinam à sua base social. Para lá da sua demagogia abrangente de "catch all parties", a verdade é que servem uma determinada classe e não a maior parte dos portugueses. Podem ter silenciado a luta de classes, mas as razões para ela aqui estão, bem à vista de todos.

A direita no poder está a cumprir bem o seu papel. Mas acho que também não pode ser esquecido o papel do PS (até porque muito deste cenário foi criado ainda por José Sócrates) e o seu apoio ao Memorando do FMI que é, afinal, a base ideológica e material das medidas de austeridade e do aprofundamento das desigualdades.

sábado, 17 de dezembro de 2011

até já Fernando




Pode ser que o facto de ser um nome tão esquecido tenha alguma coisa a ver com ter sido preso pela PIDE aos 25 anos e, aos 29, encerrado em Caxias; de o regime salazarista lhe ter cancelado uma bolsa para estudar música em Paris, ou com a sua recusa de dirigir o serviço de música da Emissora Nacional. Mas talvez seja por ter sido um dos fundadores do Movimento de Unidade Democrática e professor da Academia dos Amadores de Música. Sim, porque se eu disser que é por ter sido militante do Partido Comunista Português até ao último dia da sua vida, certamente irão dizer que é mania da perseguição.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Natal em Gaza

Maryam nasceu em Gaza, na Palestina, há vinte anos atrás. Cresceu, estudou e casou neste emaranhado de ruelas, onde se acotovelam dezenas de milhares de refugiados, expulsos dos territórios palestinianos que Israel foi ocupando ao longo das últimas décadas. Quarenta por cento deles estão desempregados e mais de metade depende exclusivamente de programas de ajuda humanitária internacional para sobreviver.

O cerco israelita à Faixa de Gaza, por terra, mar e ar, impede o acesso a um terço das terras aráveis, proíbe a pesca para lá das três milhas e fez com que noventa e cinco por cento das indústrias fechassem portas por falta de matéria-prima e impossibilidade de exportarem os seus produtos.

Maryam, uma jovem professora, sabe como a vida é difícil no território. Apesar de ter um emprego fixo e relativamente seguro, está há vários meses sem receber salário porque Israel retém as verbas destinadas à Autoridade Palestiniana. O embargo afeta todos os sectores da sociedade e todos os aspetos da existência.

Desde a tomada do poder pelo “Hamas” (uma fação da Organização de Libertação da Palestina, fundada por Yasser Arafat) e consequente afastamento da mais moderada “Fatah”, Israel agravou o cerco à Faixa de Gaza, impedindo a entrada dos bens mais básicos. Combustíveis, materiais de construção, eletricidade, ou mesmo livros e até comida e medicamentos têm sido barrados, como é relatado por várias agências internacionais.

Com um passo apressado e olhos atentos Maryam percorre as ruas poeirentas para chegar à pequena escola arruinada onde dá aulas. Mas sorri quando vê as crianças a brincar à sombra do grande muro. Com o argumento de derrubar o Hamas e de parar os ataques com rockets disparados em direção a Israel, o governo israelita começou recentemente a construção de um muro, de dezenas de metros de altura, separando também fisicamente Gaza do resto do mundo e transformando-a numa enorme prisão. Mas em vão. Nem o Hamas foi derrubado, nem os ataques pararam.

Para se sobreviver em Gaza há que desenvolver um tipo de resistência mental e de astúcia para encontrar janelas à medida que mais portas vão sendo fechadas à volta da cidade. Apesar da escassez de recursos Maryam vive numa casa erguida recentemente pelo seu marido Yusuf, usando sacos de cimento contrabandeados com a ajuda do sogro, através de uma rede de túneis clandestinos que atravessam o grande muro que os cerca, e onde muitos deixam a vida, à mercê de desabamentos e balas israelitas.

Maryam conhece bem esse caminho noturno de escuridão e medo, única ligação com o mundo exterior. Complicações com a gravidez e a impossibilidade de realizar em Gaza uma simples ecografia obrigaram-na, grávida e assustada mas decidida, a rastejar dezenas de metros na mais absoluta escuridão e silêncio, para obter a ajuda médica de que precisava.

A perspetiva de uma sobrevivência incerta e sob permanente ameaça não atemorizam Maryam. Quando lhe perguntam porque regressou à cidade, limita-se a responder: “A minha casa e a família estão aqui. Para onde iria?” A criança está bem agora e recebe suplementos alimentares de uma agência internacional. Yusuf, pedreiro de profissão, vai conseguindo arranjar pequenos trabalhos e ela, ocasionalmente, lá recebe o seu salário, o que lhes permite pagar algumas contas e arranjar comida para mais uns dias. Maryam acredita que as coisas vão mudar em Gaza e que Israel não poderá manter para sempre o cerco à cidade. Quando acabar o bloqueio, diz, levará o marido e o filho que há-de nascer a Ramallah, para conhecerem os tios e os primos e hão-de fazer uma grande festa.

Algures para o final de Dezembro, na cidade-prisão de Gaza, Maryam vai dar à luz um menino a que chamará Raja, que significa em português: “esperança”.

Nota do Autor: Qualquer semelhança desta história com a realidade é intencional e deliberada. Um bom Natal para todos os leitores.

Texto publicado no Jornal Incentivo
16 Dezembro 2011

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

bancos a tostão furado


A credibilidade da banca privada portuguesa não vale já um tostão furado e estas desvalorizações são demonstrativas das suas dificuldades em financiar-se junto da banca internacional. Anos de apoio e patrocínio do Estado, nomeadamente através de fabulosos benefícios fiscais, ajudaram a inchar o balão da banca privada, que ainda há um ou dois anos continuava a apresentar lucros anuais de muitas centenas de milhões de euros. 

Favorecidos por uma política deliberada de não aproveitamento da Caixa Geral de Depósitos, os bancos privados envolveram-se tentacularmente em todos os sectores da economia e da forma mais destrutiva. Favorecendo o consumo descontrolado, emprestaram muitos milhões de euros aos portugueses e às empresas, pelos quais receberam e recebem ainda muitos milhões mais. Foram, desta forma, absorvendo, crescendo e concentrando em todos os sectores até se tornarem, hoje, neste monstro macrocéfalo insustentável que absorve os recursos do país.

Não vou ficar nada triste quando, em breve, ouvir dizer que faliram. Mas, desconfio que Passos Coelho depressa descobrirá mais uns quantos milhares de milhões de euros para os recapitalizar ainda mais uma vez.

a Madeira adjacente


A redução dos impostos nas Regiões Autónomas assenta no reconhecimento que, nas ilhas, enfrenta-se um custo de vida agravado pelas condições de isolamento, dimensão dos mercados e distância. É, por isso, uma questão justiça e igualdade entre os portugueses, factor essencial da Coesão do nosso país. Ao acabar com ela para pagar as dívidas que a sua irresponsabilidade criou, o PSD Madeira, decreta um brutal aumento dos impostos pagos pelos madeirenses, que nalguns casos chega aos 25% e reduzindo a sua Autonomia fiscal ao nível de mera ilha adjacente. Deixa, no entanto, intocados os benefícios fiscais das empresas-fantasma (sem instalações nem trabalhadores) registadas na zona franca da Madeira, o que nos dá a verdadeira face da política de Alberto João e para quem, afinal, governa. E não é certamente para os madeirenses.

O que é certo é que a posição dos Açores sai inegavelmente fragilizada de tudo isto. E os centralistas (internos e externos), os adversários da Autonomia não deixarão de usar mais este argumento para atacarem também os direitos dos açorianos. Mais uma que temos para agradecer ao PSD.

já cá estão

As novas lanchas de piloto de Velas e São Roque. Benvindas!

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

uma para os que não desistem

A luta continua!

o regresso das plataformas


Em período pré-eleitoral, contam as ilhas que têm mais votos e o PS Açores, acossado que está pela necessidade de reforçar-se eleitoralmente na Terceira (ainda para mais estando à vista eleições intercalares na Câmara de Angra), procura abrir o caminho para criar aí uma plataforma logística, voltando subtilmente à carga com uma ideia que foi recentemente derrotada pela contestação que gerou em todo o arquipélago. Para o PS Açores não interessa se uma política é boa ou má, certa ou errada. Só interessa mesmo o balanço de ganhos e perdas em poder e influência política.

cara folga

A folga orçamental no valor de dois mil milhões de euros, recentemente anunciada com mal disfarçado triunfalismo pelo Primeiro-Ministro, vem da transferência do fundo de pensões dos trabalhadores da banca para a Segurança Social.

Como já é costume, de há muitos anos, os fundos da Segurança Social, que são objetivamente propriedade dos trabalhadores que para ela contribuem, continuam a ser usados ao bel-prazer das prioridades e constrangimentos orçamentais dos sucessivos governos. Passos Coelho não foi inovador nesta opção de utilizar o dinheiro descontado pelos trabalhadores para suportar os custos das suas políticas.

A CGTP denunciou recentemente que o Governo não forneceu aos parceiros sociais, e nomeadamente às organizações representativas dos trabalhadores do sector bancário, qualquer informação sobre este processo, nomeadamente a garantia de que os ativos transferidos para a Segurança Social eram os suficientes para garantir o pagamento das pensões aos bancários reformados. Sem esta condição, poderemos estar a enfrentar, a breve trecho, a situação de serem os descontos dos trabalhadores do Regime Geral a suportar estes encargos, assim contribuindo para descapitalizar a nossa Segurança Social.

Isto é ainda mais preocupante num momento em que a Segurança Social verá as suas receitas a encolher (por existirem menos trabalhadores e terem salários mais baixos), e as suas despesas a engordar, (muito mais subsídios de desemprego e outras prestações sociais).

Das duas, uma: Ou de facto não havia verdadeira necessidade de aplicar cortes tão brutais, nomeadamente nos subsídios de férias e de Natal dos portugueses, e o PM mentiu descaradamente aos portugueses, ou, então, estamos perante mais um seríssimo ataque à sustentabilidade da Segurança Social, que os ultra-liberais do PSD (nos quais Passos Coelho se integra claramente) sempre sonharam destruir para privatizar.

Esta folga pode sair-nos mesmo muito cara.

Texto publicado no Diário Insular
14 Dez 20112

e para quem pensava que Leonard Cohen era tudo o que os canadianos tinham para oferecer à música do mundo