Os tempos mudaram. A relação
entre o Estado e os cidadãos neste país alterou-se de forma definitiva e,
estejamos melhor ou pior informados, mais ou menos preocupados com pagar o
empréstimo à troika, a verdade é que todos o sentimos.
Depois de dois anos de cortes,
impostos extraordinários e aumento dos ordinários, reduções na despesa do
Estado, encerramentos de serviços, aumentos de contribuições e taxas, cortes de
subsídios considerados inconstitucionais, mas aplicados à mesma, as notícias desta
última semana foram, para muitos de nós, a gota de água.
Aquela parte dos portugueses que aceitaram
as anteriores medidas de austeridade com base na promessa de que seriam as
últimas ficou certamente sem palavras quando ouviram o Ministro das Finanças na
televisão.
Como sem palavras ficaram todos
os que antes defendiam a ação do governo PSD/CDS e a imposição de sacrifícios,
chegando ao absurdo de, nos últimos dias, absolutamente ninguém, nem dos
próprios PSD e CDS, vir defender publicamente as medidas tomadas pelo Governo.
Percebe-se. A necessidade de
tomar medidas, ainda para este ano nalguns casos, é o reconhecimento do
falhanço absoluto da política de austeridade que PS, PSD e CDS subscreveram e
que Passos Coelho e Paulo Portas aplicaram com zelo fanático. Falhou o controlo
do défice, falharam os objetivos da redução da despesa, falhou o aumento da
receita do Estado e, a verdade que agora entra pelos olhos de todos os
portugueses dentro é que estamos agora muito pior do que há dois anos atrás.
Mais pobres, mais endividados, a produzir e a consumir muito menos, com
empresas as cada vez mais perto da falência.
A esta situação o Governo,
incapaz de reconhecer o falhanço da sua política, responde com a maior
transferência direta de dinheiro dos trabalhadores para o capital bancário de
que há memória na história de Portugal, acentuando o ciclo da recessão, sabendo
de antemão que apenas irá piorar o défice, reduzir a receita do Estado,
empobrecer deliberadamente os portugueses. Depois de todas as promessas esquecidas,
de todos os compromissos traídos a evidência para cada vez mais portugueses é
que o Governo quer falhar.
Depois dos últimos anúncios de
novas medidas de austeridade, não é mais possível pensar que o Estado é uma
entidade fiável, sólida, que assume responsabilidades e cumpre compromissos. É
o próprio contrato social, o cimento que nos une enquanto sociedade, com
obrigações e direitos para cada um dos seus membros, que se rasga e se destrói
sem que seja muito claro, afinal, que tipo de sociedade é que se quer por no
seu lugar.
O consenso, se é que ainda
existia, em torno do memorando de entendimento com a troika e a base social de
apoio dos três partidos que o subscreveram morreu e a questão torna-se cada vez
mais clara para os portugueses: a solução dos problemas do país não passa já
pela mera substituição de um Governo do PSD por um outro, parecido como sempre,
do PS. Sabemos todos já que a austeridade “mata” do PS não é alternativa à
austeridade “esfola” do PSD. Ao contrário de outrora, o descontentamento social
não encontra já alívio temporário no voto alternado e rotativo entre os
partidos do centrão.
Ainda bem. Pode abrir-se então
assim um tempo novo para Portugal. Podemos, finalmente libertos da
inevitabilidade previsível do rotativismo e do seu discurso formatado, abordar
a sério as grandes questões: O que queremos de uma sociedade? Que direitos? Que
deveres? Que justiça? O que é que queremos do Estado e o que é que exigimos aos
seus governantes? E, talvez mais importante, a grande pergunta que se coloca a
todo e qualquer cidadão de uma sociedade democrática: O que é que estamos
dispostos a fazer para que se cumpra a nossa vontade?



















