A vida aqui nunca foi fácil. Os
antigos sabiam-no bem. Foi à força de braço e de teimosia de alma que os que há
560 e tal anos começaram a afluir à protecção das encostas do perfil de dragão
desta ilha aprenderam a tirar riqueza das pedras, que afinal escondiam fértil
terra e que encontraram ventura na veja, na lapa e na moira e no mais que as
ondas salgadas trazem a estas costas.
Foi duro. Esta ilha não era para
fracos. Desviar a pedra, arrancar o mato, quebrar a onda, através da neblina,
apesar do ciclone, apesar do corsário ou da tropa – inimigos que não se
distinguem – sofrendo imposto, corveia e dízimo para, depois do vulcão, depois
do abalo, recomeçar tudo do nada outra vez. Partilhava-se o pão, sempre
escasso, em sopas simples que, de serem tão generosamente humanas, só podiam
ser santas, como santo só pode ser este espírito que faz os homens iguais,
irmanados nas alegrias e adversidades.
Nos longos invernos das
ditaduras, sobrando tanto silêncio forçado nas gargantas e saudades tamanhas dos
que se safaram a coberto, fugindo a sortes e levas para guerras cujos ecos mal
cá chegavam. Por aqui ficou a fome, dura, mas também a determinação, muito mais
dura, dos homens de pedra que fizeram São Jorge.
Não há mal que sempre dure nem
Janeiro que não termine e na primavera de esperança que, súbita, também aqui
chegou viva e vermelha, de novo se levantaram vozes e festas, se ergueram
bandeiras e vontades, transformando a ilha e a vida. Ergueram-se escolas e
fábricas, rasgaram-se estradas e portos, prometendo acabar para sempre com
todos os invernos.
Mas depressa chegaram novos
corsários, impecáveis de gravatas e palavras caras, juros, spreads e moras,
prometendo abundâncias mas acabando por levar, afinal, rendas, prédios e
cabedais, como os corsários sempre fizeram. A chuva
de ouro da Europa que tinham prometido, nunca viria a cair sobre a ilha. Levaram-na
os ventos da política para outras paragens. Por cá, ficou a chuva de sempre e o
lento abandono. E recomeçou a invernar em São Jorge.
A terra continuou a dar o mesmo,
às vezes até mais, mas esse mesmo e esse mais deixaram de merecer valor que
pague sustento que baste. O mar continuou a encher anzois generosos mas que
agora pouco valem no mercado grande da avidez dos intermediários e distribuidores.
A justa revolta dos homens da terra e do mar foi
silenciada de novo, desta vez à força de subsídios e ameaças veladas, em vez
das bastonadas francas de outrora.
Agora, uma vez por ano, um
carnaval de promessas invade a ilha, com um animado corso de membros do Governo
Regional, vasculhando as freguesias à procura de promessas que possam deixar
por cumprir ou para reprometer o que ainda não cumpriram. Depois da Terça-feira
Gorda do governo, vem a Quarta-feira de Cinzas da oposição. Chegam outros políticos,
de olhar mais duro e palavras mais ásperas, criticando o pouco que os primeiros
fizeram e prometendo fazer eles tudo o que os outros deixaram por fazer. Um
festival que diverte, mas que há muito tempo não anima, porque os jorgenses
sabem bem que dali só vêm palavras, vento que não traz nem verões, nem a gente
que partiu, nem o progresso que se atrasa.
Acabou-se a produção, reduziu-se
a riqueza, fechou a loja, encerrou a empresa, minguou o emprego. E os mais
novos começaram a abalar outra vez, deixando desertas estas encostas de tanta
promessa. O futuro ganha-se, hoje como há 500 anos, à força de braço e teimosia
de trazer o sustento para casa. A vida aqui não é fácil. Os mais novos sabem-no
bem.
Texto publicado no Jornal O Breves









