As intensas
tempestades que se abateram sobre o nosso arquipélago resultaram mais uma vez
em tragédia. Uma derrocada no Faial da Terra, em São Miguel, reclamou três
vítimas mortais e o transbordo de uma ribeira, na Freguesia do Porto Judeu, na
Terceira, causou uma destruição verdadeiramente impressionante.
Embora este
grau de destruição, bem como consequências tão trágicas, não sejam habituais, a
verdade é que todos os Invernos se têm sucedido catástrofes deste género em todas
as ilhas. O problema não é novo e os açorianos enfrentam-no desde os primeiros
tempos do povoamento das ilhas. A construção tradicional junto às linhas de
água cobrou, ao longo dos séculos, o seu preço em sangue e em destruição e
continua, de forma perfeitamente injustificada, a fazê-lo.
Aprendemos a
evitar a ocupação das zonas mais perigosas, compreendemos a importância de
evitar a impermeabilização de solos e a referenciar as zonas de escoamento de
águas, sabemos avaliar as zonas geologicamente instáveis e, sobretudo,
aprendemos a importância vital da manutenção e limpeza dos cursos de água e
leitos de cheia, evitando a sua obstrução e a existência de cheias. E, fizemos
tudo isto bastante bem, através de uma colaboração positiva entre o Governo Regional
e as Juntas de Freguesia.
No entanto, nos
últimos anos a situação tem-se vindo a alterar para pior, com as consequências
que estão, infelizmente, bem à vista de todos. De ano para ano, o Governo tem
vindo a reduzir cada vez mais os valores pagos às Juntas pela limpeza dos
cursos de água. Foram menos 35% só em 2012 e nada de bom se anuncia para 2013. As
Freguesias, cada vez mais descapitalizadas e esvaziadas de capacidade
operacional têm tido crescentes dificuldades em manter uma prevenção eficaz. O
Governo, casuisticamente e sem critério aparente, entrega algumas ribeiras às
juntas enquanto mantém outras à responsabilidade dos seus próprios serviços.
Consequência: em cada ilha a situação é confusa, com ribeiras que são mantidas
por várias entidades e outras que ninguém sabe muito bem quem é que tem a
responsabilidade de manter.
Com o seu
desinvestimento, assente na recusa desconfiada de descentralizar fundos,
capacidades e competências para entidades que não estejam sob o seu controlo
direto, o Governo Regional tem contribuído para que aumentem as situações de
risco potencial de cheias e deslizamentos.
Na discussão do
Plano Regional Anual para 2012 o PCP propôs um reforço de verbas com vista a
que se realizasse, na primavera e verão de 2012, uma acção especial de limpeza
de ribeiras para evitar novos desastres, como os que já sucederam no inverno
passado. O Governo Regional recusou, argumentando que se tinham tratado de
“condições climatéricas excepcionais”. Apesar disso, o PCP voltou a insistir
nesta proposta em Maio de 2012. Desta vez a maioria não quis assumir o ónus de
a chumbar novamente, limitando-se a deixá-la na gaveta parlamentar, não
agendando a sua discussão.
Há menos de
duas semanas atrás, o Deputado do PCP no Parlamento Regional apresentou, mais
uma vez, outra proposta para que sejam efectuadas as acções de limpeza e
consolidação dos cursos de água de que depende a segurança das populações de
todas as ilhas, desta vez apoiando-se no estudo “Avaliação do estado dos cursos
de água nos Açores”, realizado pelos serviços de Ambiente em Outubro de 2012,
que deve servir de base a uma acção geral, referenciando dezenas de pontos
críticos e intervenções urgentes em todas as ilhas.
Sendo um
investimento avultado, na ordem de alguns milhões de Euros, a verdade é que
quanto mais tarde for realizado, mais caro sairá à Região. Para além disso,
depois de resolvidas as situações mais complicadas que o abandono dos últimos
anos criou, a manutenção das ribeiras nos anos seguintes será certamente menos
complicada e menos dispendiosa. É, a todos os níveis, uma proposta irrecusável.
Se nada for feito assistiremos de certeza à repetição e agravamento destas
situações. É preciso agir, em nome das vítimas dos últimos dias mas, sobretudo,
em nome das vítimas que teremos no futuro se o Governo insistir na sua política
de remediar em vez de prevenir.
15 Mar 2013





