A campanha eleitoral para o
Parlamento Regional foi como se esperava disputada e intensa. As narrativas
políticas contadas aos eleitores foram muitas, de todos os géneros e para todos
os gostos. Houve a confusa fábula dos cidadãos plataformistas que, coitados, se
sentem oprimidos pelos partidos políticos e, por isso, decidem paradoxalmente
juntar-se a dois partidos políticos, PPM e PND, mantendo uma aliança que só na
longínqua ilha do Corvo têm a coragem de assumir com outro partido político, o
PSD. Não foi com certeza fácil explicar isto aos eleitores e muitos deles,
entre os quais me incluo, ainda não conseguiram perceber muito bem.
Houve a lenga-lenga popular da
esquerda elegante que aparece agora, às vezes pela primeira vez, nas ilhas a
repetir mecanicamente que tem soluções para os problemas dos Açores, apesar de
os seus dois deputados as terem mantido bem guardadas e secretas durante os quatro
tranquilos anos que passaram no Parlamento Regional. Será é que desta que irão
apresentar as tão maniacamente repetidas soluções?
Houve a estória infantil do
pequenino CDS que, comendo muitas papas de demagogia e grandes biberons de
desinformação política, conseguiu vencer o medo de submarinos e crescer e até já
vai pensando no que quer ser quando for grande: muleta do PS ou muleta do PSD?
Que importa? Há-de ser parte da decisão, seja com Deus ou com o Diabo ou com
quem estiver pelo meio, senão… faz birra!
Houve o torturado poema
surrealista da candidata do PSD que, apesar de não gostar nada do Governo do
PSD nem da sua política, sofre a agrura de ser também Vice-Presidente desse
mesmo PSD. Mesmo com o seu intenso drama interior, Berta Cabral já parece mais
sorridente nos últimos dias, liberta que está do peso do milhão de promessas
que nunca poderia cumprir, já que a voz sempre sinistra do Ministro das
Finanças (também ele do PSD, veja-se), com três penadas de austeridade, fez a
vitória fugir por entre os dedos ao do PSD.
E é sem dúvida incontornável
falar do poema sinfónico, em tom maior, do PS que, feliz de poder finalmente
atirar com culpas próprias e alheias para Lisboa, já não tem que se preocupar
assim tanto com a avaliação que os açorianos fazem do seu governo. O PS começou
então a lançar os foguetes de uma vitória que esteve bastante tremida e a
sonhar poder continuar a mandar sozinho e continuar a tecer pacientemente a
teia de consciências compradas, favores trocados e ameaças mais ou menos
veladas que desde 1996 lhe seguram o eleitorado que os mantém no poder.
Alimentada pela miragem de uma
possível mudança de Governo e pela presença de doze candidaturas no terreno,
esta campanha eleitoral obrigou a que as máquinas partidárias dos três partidos
do costume redobrassem esforços e abrissem cordões à bolsa para camisolas a
eito e jantares de fartura, tentando encher cadeiras de comícios e inchar
ambições de poder.
Obrigou a que, um pouco por toda
a parte, os velhos caciques locais se encarniçassem a arrebanhar, a perseguir
ou – quando tudo o resto falha – a ameaçar eleitores contrários e hesitantes,
para tentarem segurar os respetivos eleitorados dos melífluos apelos para
mudarem de sentido de voto.
E, com muito mais notoriedade,
obrigou a que os líderes se esganiçassem, metralhando promessas e profetizando
futuros felizes e coloridos – ora rosa, ora laranja – para os afortunados
açorianos que tão boa vida vão ter daqui para a frente. Sorte a nossa!
Mas a verdade é que também houve
outra campanha, diferente, que abordou de frente os problemas que temos de
resolver se queremos ter alguma esperança no futuro e que colocou a cada um dos
cidadãos dois desafios essenciais: recuperar o rendimento das famílias e retomar
a Autonomia que o Governo de Carlos César entregou ao de Passos Coelho. Sem
superar estes dois obstáculos, pura e simplesmente não há nenhuma esperança de
os Açores retomarem um rumo de crescimento.
Para o conseguir é preciso não
embarcar nem nas falsas promessas nem nos perigos e erros do poder absoluto de
um só partido. Aníbal Pires a nível regional e João Decq Motta aqui no Faial,
ao lado de gente de todas as ilhas, deram rosto e voz a uma alternativa, real,
que pode pesar decisivamente no destino dos Açores. Pense nisso.






