A forma como a
discussão em torno da “reestruturação” do Serviço Regional de Saúde (SRS) tem
mobilizado a sociedade açoriana, motivado paixões e discussões acesas,
movimentações dos cidadãos, análises e tomadas de posição dos parceiros sociais,
é sem dúvida um sinal positivo da vitalidade da nossa Democracia.
A sociedade
açoriana, diria que em peso, pronunciou-se de forma unânime contra os cortes na
prestação de cuidados de saúde, contra a concentração de serviços na ilha de
São Miguel, contra o esvaziamento dos Centros de Saúde e afirmou de forma clara
a necessidade de abordar os verdadeiros problemas do nosso Serviço de Saúde, problemas
esses que não dizem respeito à “estrutura” dos serviços, mas sim às dívidas
gigantescas que sufocam a capacidade de investimento na melhoria dos cuidados
prestados.
Já desde alguns anos que os nossos hospitais e centros de saúde andam
a cortar nas despesas operacionais. Atente-se no relatório e contas do Hospital
da Horta relativo ao ano de 2011: Custos com
pessoal: - 10%; matérias consumidas: - 8%; fornecimentos e serviços externos: -
7% e outros custos operacionais: - 26%. O problema está em que, neste mesmo
ano, os custos e perdas financeiras (o que o Hospital despende com a dívida
bancária) aumentaram 479% (mais 2,5 milhões de euros). E esta realidade
repete-se, igualzinha, pelos hospitais de Angra (mais 282,6%, 3,5 milhões de
euros de custos financeiros) e de Ponta Delgada (mais 7,6 milhões de euros de
serviço da dívida).
Mas, para se ter uma ideia ainda mais
clara de como o dinheiro que se destina à melhoria dos cuidados de saúde está a
ser desviado para pagar dívidas bancárias, é preciso olhar para a Saudaçor.
Esta empresa regional, que assume dívidas dos centros de saúde e dos hospitais,
já acumula um passivo superior a 310 milhões de euros, o que equivale a mais de
um quarto do Orçamento Anual da Região. O perfil de crédito e situação
financeira da Saudaçor fazem com que os bancos já lhe cobrem spreads na ordem
dos 7,5% pelos seus empréstimos, pelo que até não é de espantar que, só em
2011, tenha pago 8,3 milhões de euros de juros e outros encargos!
Estas dívidas não surgiram do nada e
nada têm a ver com a prestação dos cuidados de saúde propriamente ditos. O que
se tem vindo a passar, desde há muito tempo, é que o Governo Regional não
transfere para as unidades de saúde, em cada ano, dinheiro suficiente para
estas fazerem face às suas despesas com equipamentos, medicamentos, materiais,
pessoal, novos edifícios, etc., forçando-as a terem de recorrer à banca para
poderem garantir a prestação dos cuidados de saúde. Os Governos Regionais têm
vindo a libertar assim verbas para outros investimentos, noutros setores, para
conseguirem maiores dividendos político-eleitorais, apesar dos repetidos e
sucessivos alertas da oposição e do próprio Tribunal de Contas. Não vale tentar
tapar o sol com a peneira, nem falar em “reestruturar” o SRS sem abordar este
que é, afinal, a raiz do problema.
É necessário
que todo o movimento da opinião pública açoriana em torno da reestruturação do
SRS não caia em saco roto e não seja inutilizado pela teimosia política da
maioria socialista, pouco habituada que está a ter de recuar naquilo que decide
fazer. O Governo tem de, na nova proposta que irá apresentar em Setembro, dar
respostas claras à vontade dos cidadãos e apresentar soluções concretas para o
problema da dívida do SRS, sem pôr em causa o direito humano básico de acesso a
cuidados de saúde.
Não bastam com
certeza alterações de pormenor ao Plano de Reestruturação do Serviço Regional
de Saúde, a menos que o Governo esteja a utilizar a velha tática de José
Sócrates de apresentar uma proposta péssima, para depois, num recuo calculado,
mais facilmente nos fazer engolir uma proposta mesmo muito má.



