A
esquerda está na moda. As velhas propostas, bandeiras políticas e
reivindicações sociais dos setores mais à esquerda entraram no mainstream. O
naufrágio da velha nau do capitalismo ultraliberal tem feito com que cada vez
mais políticos, partidos e sectores de opinião comecem precipitadamente a
abandonar o barco e a abraçar as propostas sobre as quais antes lançavam
anátema, apelidando-as de radicais e irresponsáveis.
Os
exemplos são muitos e vêm de cima: O Presidente da maior economia capitalista
do mundo, Barack Obama, prepara-se para aumentar significativamente o salário
mínimo para dinamizar a economia e para que quem trabalha não tenha de depender
de apoios sociais. Uma ideia que, infelizmente, quando proposta em Portugal, ou
mesmo nos Açores, ainda põe os políticos do PS, PSD e CDS a arrepanhar os
cabelos…
Os
principais países da União Europeia preparam-se para aplicar a velha Taxa
Tobin, também chamada “Taxa Robin dos Bosques”, teorizada nos anos 80 pelo
economista e Prémio Nobel James Tobin e que teorizava que com um imposto de
0,1% sobre o valor das transações bolsistas, seria virtualmente possível
erradicar a pobreza no mundo. Agora, em face da crise económica, desapareceram
as resistências ideológicas e os medos da “fuga de capitais” com que os
principais governos da Europa sempre se justificaram para a recusar.
Mas
também por cá, muitos políticos do nosso arquipélago se andam a tornar
especialistas na cambalhota ideológica, defendendo hoje o que antigamente
combatiam com fervor. Nesta espécie de mundo ao contrário, que também por cá
temos, o CDS, nos Açores, vota a favor da proposta do PCP para devolver os
subsídios de férias e de natal de 2012, passando completamente ao lado da
postura do seu Governo e invertendo a posição que antes assumira, quando o
mesmo assunto foi discutido no Parlamento Regional.
O
PSD demonstra grandes preocupações com o desemprego nos Açores e crítica a
política de austeridade, esquecendo-se porventura que é o seu líder, o mesmo
que foi recebido com aplausos no congresso do PSD Açores em Ponta Delgada, que
chefia o Governo que o líder do PSD Açores critica.
O
PS, pelo seu lado, esqueceu-se completamente que, afinal, negociou e subscreveu
o memorando com a troika que obriga a alterar a Lei das Finanças Regionais e,
consequentemente, a aumentar os impostos nos Açores. Quando Vasco Cordeiro se
diz contra o aumento de impostos, aplaudimos, mas não conseguimos deixar de
notar que não há muito tempo atrás, e enquanto Secretário Regional da Economia,
defendia denodadamente o rico negócio que José Sócrates tinha feito com o FMI.
A
realidade do adensar da crise deu uma razão inquestionável aos que criticavam o
rumo seguido nas últimas décadas. As dramáticas imagens da Grécia, a total
ausência de resultados positivos das medidas de austeridade, os números da
recessão durante o ano de 2012, o mais de um milhão de portugueses sem emprego,
obrigaram muita gente a mudar de ideias.
Como
não podia deixar de ser, é a realidade que transforma a consciência e, na rua,
nos jornais, nos púlpitos universitários e mesmo nas bancadas parlamentares,
parece que já ninguém defende a política de austeridade cega e de capitalismo
neoliberal exacerbado que tanto os Governos do PS como os do PSD sempre
defenderam. No meio do crescente consenso social, só o nosso Governo, démodé e
bota-de-elástico, agarra-se teimosamente à sua enlameada trincheira ideológica,
donde vai disparando cada vez mais austeridade.
O
progresso para um país mais equilibrado, com uma maior intervenção estatal e
uma melhor distribuição do rendimento ganha adeptos e, porventura, começa-se a
desenhar o consenso necessário para a sociedade que queremos no futuro. Só
falta mesmo descruzarmos os braços e pararmos de tolerar aquilo com que não
concordamos.
Texto publicado no Jornal Incentivo


