Passos Coelho e Paulo Portas
referem-se sempre às piores medidas de austeridade como “temporárias”,
remetendo o seu alívio para o final do chamado “programa de ajustamento”,
previsto para o final de 2014. No entanto, à medida que essa data se aproxima,
as suas palavras tornam-se cada vez mais dúbias, colocando condições mais
difíceis para o fim da política de austeridade brutal, a que desejavam, talvez,
que já estivéssemos mais habituados. Afinal, este ciclo vicioso de austeridade,
défice e dívida, já começou há alguns anos.
Por exemplo, foi ainda com José
Sócrates no poder, em 2011, que os funcionários públicos viram os seus salários
cortados em 5% em média, começando nos 3,5% a partir de um salário bruto de
1500 euros e chegando a uma redução máxima de 10%. Este belo roubo foi mantido
sem alterações em 2012 e 2013 e, agora, o Governo prepara-se para o agravar,
começando a cortar nos salários logo a partir dos 600 Euros brutos. Diga-se de
passagem que este valor corresponde a um salário real muito próximo do salário
mínimo. Passos Coelho e Paulo Portas, apesar de afirmarem que a medida é
transitória, estão já a preparar uma nova tabela salarial para a função pública
que visa, na prática, tornar estes cortes permanentes.
O que parece que afinal era
transitória e já não será aplicada em 2014 é a taxa adicional de IRS 2,5% que recai
sobre os rendimentos acima de 80 mil euros e de 5% para os valores acima de 250
mil euros. O facto de a receita desta taxa ser apenas de 16 milhões de euros
(compare-se com os 1500 milhões que resultam dos cortes salariais) mostra-nos
bem quem é que anda a pagar os sacrifícios. Está visto que não são os mais
ricos e do que se trata aqui, verdadeiramente, é de desequilibrar ainda mais a
repartição do rendimento nacional.
Invertendo nas palavras a lógica
da sua acção, o Governo chama a esta política um ajustamento. Mas o que
significa, afinal “ajustamento”? Os dicionários dizem-nos que ajustar significa
“adequar”, “tornar justo”, mas Paulo Portas e Passos Coelho fazem exactamente o
contrário: querem “ajustar” a distribuição do rendimento nacional, mas reduzindo
a fatia pública, de forma a manter os lucros dos grandes grupos do sector
privado, tornando os ricos mais ricos e os pobres muito mais pobres, agravando
a desigualdade e a injustiça social; Querem “ajustar”, mas para baixo, já se
sabe, as condições e expectativas de vida da maioria dos portugueses, para que
não nos queixemos tanto da pobreza para onde fomos lançados, impondo um
retrocesso social e humano de muitas, muitas décadas.
Afirmam-nos que esta política é
necessária até que a economia do país esteja em melhores condições e possa
cumprir os seus compromissos, que é o eufemismo utilizado para pagar milhares
de milhões de euros por ano em juros da dívida pública às grandes instituições
financeiras. Mas o paradoxo é que são as próprias medidas de austeridade que
fragilizam a nossa economia e aumentam de mês para mês a nossa dívida,
tornando-nos assim devedores mais duvidosos aos olhos dos tais “mercados”, os
mesmos que nos ditaram esta receita de desastre. Cria-se, desta forma, um
mecanismo de repetição perpétua, um ciclo vicioso que se destina a manter-nos, talvez
para sempre, sob o controlo directo dos alegados credores.
O Governo começou já a criar o
eufemismo político para a continuação da imposição estrangeira pós-2014: vai
chamar-se “seguro cautelar” ou “programa cautelar”, uma expressão vaga, mas que
certamente ouviremos muitas vezes, martelada até à exaustão pela comunicação
social, sem que com isso fiquemos mais informados sobre o seu conteúdo. Mas já
todos podemos entender o que significa: a continuação sem fim à vista dos
sacrifícios.
Embora o panorama pareça
desolador, a verdade é que isto não é um beco sem saída. Os partidos da troika
alimentam-se do nosso conformismo, sobrevivem graças ao silêncio e indiferença
colectivos que têm permitido que façam do nosso país o que lhes apetece. Temem
as manifestações e a mobilização dos cidadãos porque sabem que é a única força
que os pode efectivamente travar.
Já perdemos o luxo de não nos
preocuparmos. Não temos agora outra opção senão impormos, enquanto cidadãos
outro rumo, possível, para Portugal. Amanhã, Sábado, 26 de Novembro, por todo o
país e também aqui na nossa cidade da Horta, muitos milhares de portugueses vão
sair para as ruas, por si próprios e pelo nosso futuro. Como dizia há dias
alguém bem mais sábio do que eu: “a saída somos nós!”.




