Desde há muito
tempo que os economistas procuram desenvolver modelos que expliquem as
assimetrias e desequilíbrios no desenvolvimento das regiões e entender os
factores que o potenciam ou retardam. São ensinamentos de primeira importância
para os Açores e com uma aplicação muito directa na situação da nossa ilha.
No início dos
anos 70, o economista, Prémio Nobel, Milton Friedman publicou “Uma teoria geral
do desenvolvimento polarizado”, na qual analisa as relações que se estabelecem
entre o centro e a periferia numa dada região. Simplificando, Friedman conclui
que os centros tendem a atrair os investimentos, a fixação de empresas e a
geração de riqueza, concentrando o emprego, a população, as atividades
avançadas e a inovação económica, em termos de tecnologias e conhecimento,
nomeadamente pela presença de instituições de ensino superior e investigação e
desenvolvimento. O centro exporta, enquanto a periferia importa. Estas
disparidades são normalmente agravadas pela ação do próprio Estado que tende a
favorecer e a dirigir a maior parte dos seus recursos para as zonas de maior
concentração de actividades e população, agravando as assimetrias. Trata-se,
portanto de uma relação de domínio que não é só económica, mas também política.
A periferia,
pelo seu lado, é drenada de capitais e recursos humanos, facto tão mais grave
quanto os trabalhadores que migram são normalmente os mais jovens, dinâmicos e
com maior formação. A perda de população e o menor peso económico fazem com que
haja uma efetiva perda de poder político da periferia, que vê as suas
possibilidades de autodeterminação e afirmação de um rumo de desenvolvimento
independente cada vez mais limitadas. Este ciclo vicioso torna, a prazo, cada
vez mais difícil alterar esta relação desigual e aprofunda a disparidade de
desenvolvimento e o domínio do centro sobre a periferia.
Esta
racionalização teórica soará, infelizmente, muito familiar para a maior parte
dos açorianos, já que assenta que nem uma luva ao processo de concentração
interna a que temos assistido nas últimas décadas. A perda de população, os
encerramentos de empresas, a partida dos nossos jovens, a redução da
actividade, são realidades bem conhecidas para quase todas as ilhas do nosso
arquipélago. Somos hoje uma região cada vez mais polarizada, caminhando para um
cenário de termos uma grande ilha/cidade e oito ilhas/parques naturais
adjacentes, pobres e escassamente povoadas.
A única forma
de contrariar o ciclo da concentração é através da ação dos poderes públicos.
Os investimentos privados seguem naturalmente a lógica do seu próprio interesse
e procuram os locais que lhes darão maior retorno, pelo que só o Estado está em
condições de planificar e investir na periferia, de atenuar as assimetrias e
procurar um desenvolvimento convergente.
Só que, na verdade, a estratégia para o
desenvolvimento dos Açores não é concebida com essa preocupação, bem pelo
contrário. O Governo Regional é o primeiro a reforçar este processo de
concentração, dirigindo o grosso do investimento para São Miguel, onde estão as
maiores empresas e onde existe uma massa de eleitores que lhe assegura a
manutenção do poder absoluto, fortalecendo as dinâmicas económicas, sociais e
de ambiente cultural já existentes. Grandes infraestruturas, representando por
vezes muitas dezenas de milhões de Euros, como o caríssimo Museu de Arte Contemporânea na Ribeira Grande, ou o Parque
Tecnológico Nonagon na Lagoa, ou o Inova (Instituto de Inovação
Tecnológica dos Açores), em Ponta Delgada, são apenas exemplos desse esforço de
concentrar em São Miguel também as dinâmicas de inovação, que têm
importantíssimos reflexos económicos.
No resto das
ilhas, o Governo Regional procura gastar apenas o suficiente para tentar abafar
descontentamentos e silenciar as vozes alternativas. O investimento a ser feito
na Frente-Mar da nossa cidade, por exemplo, embora positivo é comparativamente
pequeno e demorado no tempo, e nada acrescenta de forma direta à capacidade
produtiva da nossa ilha.
A perda de
importância política do Faial no âmbito regional resulta deste processo de
concentração que descrevi, mas resulta também das opções dos faialenses que têm
recompensado com o seu voto os que de forma efetiva e deliberada prejudicam a
nossa ilha e nos tornam uma periferia empobrecida. Teremos de começar aqui
mesmo, na nossa ilha, a quebrar o ciclo vicioso da concentração e a recuperar a
afirmação independente dos rumos para o nosso desenvolvimento. Senão é melhor
começar a fazer as malas.
Texto publicado no Jornal Incentivo
31 Janeiro 2014
Texto publicado no Jornal Incentivo
31 Janeiro 2014



