Esta semana, a
Procuradoria-Geral da República arquivou o processo movido contra Miguel Sousa
Tavares por Cavaco Silva, confirmando assim o velho ditado popular de que quem diz a verdade não merece castigo e que, portanto, não é crime chamar “palhaço”
a este Presidente da República.
Inspirados por
esta despenalização da palhaçada política, Passos Coelhos e Paulo Portas
lançaram-se num complicado sketch cómico para distrair o país e desviar as
nossas preocupações dos desastrosos resultados da sua política. Neste número,
Passos, palhaço rico, tenta esforçadamente acalmar a birra de Portas, palhaço
pobre, perante o olhar atento de Tó Zé Seguro, palhaço aspirante, que em bicos
de pés vocifera da beira da arena.
Depois da
demissão do Ministro das Finanças (“Fizemos asneira. Vou-me pirar antes que
isto rebente!”), seguiu-se a demissão “irreversível” de Paulo Portas (“Não
brinco mais contigo, Pedro!”), seguida da lenga-lenga teimosa de Passos Coelho
(“Daqui não saio, daqui ninguém me tira!”), entremeada com o enxovalho do
palhaço Cavaco (deixem-me lá exercer este novo direito!) que, enquanto estes
acontecimentos se desenrolavam, estava, como gosta, entretido com as fardas de
gala numa cerimónia oficial, sem nada saber do que se passava no país.
Perante a crise
política, os neuróticos mercados que são tão importantes para o país e que, tal
como Cavaco, têm mais medo de eleições do que o diabo da cruz, depressa
entraram em stress, com a Bolsa de Lisboa a cair mais de 5%, e lá teve Passos
Coelho de ir a correr a Berlim sossegar a madrinha Merkel (“Foi só uma birra do
Paulo. A gente negoceia e aguenta a coligação. Não se preocupe, Madrinha.”).
Entretanto Tó
Zé Seguro dava pinotes entusiasmados no Largo do Rato (pois desde que passou a
liderar nas sondagens o PS começou a achar por bem que o Governo caísse) e
começou logo a ensaiar exatamente o mesmo discurso que Passos Coelho: “É
preciso que os sacrifícios dos portugueses não sejam desperdiçados, temos de
recuperar a credibilidade externa e garantir o cumprimento dos compromissos de
Portugal”. Tó Zé Seguro procura assim mostrar à Madrinha Merkel que o PS será
um cobrador mais eficaz que PSD e CDS, garantindo muito menos contestação
social à rapina das finanças nacionais para pagar os juros da dívida.
A palhaçada
cumpre a sua função: O país entretém-se, dá umas gargalhadas e não pensa nos
10,6% de défice, nem nos 18% de desemprego, nos 4% de recessão, nem no
endividamento nacional, que cresceu 25% nos últimos dois anos, isto é: desde
que fomos “salvos” pela troika.
À hora em que
escrevo, ainda não é claro qual vai ser o “grand finale” com que estes três senhores,
Passos, Portas e Seguro pretendem deixar o país boquiaberto, para melhor
engolir o inevitável segundo resgate que se aproxima a passos largos, mas parece
claro que, para que haja uma mudança real na substância das políticas, não
bastará redistribuir os papéis entre os três palhaços.
Vão ser
precisas eleições, sim, mas para que se mude o rumo da bancarrota inevitável a
que nos estão a conduzir. Vão ser precisas eleições, sim, mas para que a
firmeza na defesa do interesse nacional abra as portas a um acordo
internacional que seja de cooperação e não de saque, um acordo que permita que
saiamos do buraco em vez de nos afundarmos cada vez mais. Está nas nossas mãos,
com o nosso protesto, fazer com que essas eleições aconteçam e que, por uma
vez, não sejam apenas mais uma palhaçada para nos entreter.




