Os Açores
tornaram-se esta semana a primeira região de Portugal a instituir políticas de
restrição do uso de sacos de plástico descartáveis. Através da introdução de
uma ecotaxa de 5 cêntimos sobre cada saco de plástico distribuído no comércio
local, bem como através da proibição de publicidade nos sacos de plástico, os
Açores passam a estar à frente do país, em termos de proteção ambiental e
redução de resíduos e juntam-se a vários outros países e a muitas cidades da
Europa e de fora dela na limitação e redução dos resíduos de plástico.
Não será por
acaso. Ao sermos uma Região com um património ambiental riquíssimo, com habitats
marinhos e terrestres únicos e frágeis, devemos ser também um exemplo na
proteção do ecossistema e na procura da sustentabilidade ambiental. Claro que
não podemos, por nós próprios, resolver os problemas do plástico, que são
planetários. Mas podemos, e devemos, fazer a nossa parte para proteger o nosso
meio ambiente.
Já escrevi nestas
páginas sobre os perigos potenciais e malefícios confirmados dos resíduos de
plástico no meio ambiente e, em particular, nos oceanos, para onde uma parte
dos nossos sacos de plástico acabam inevitavelmente por ir parar, por mais
cuidados que se tenham. Mas poderia também acrescentar os encargos
elevadíssimos que impendem sobre os Municípios e sobre a Região em termos dos
sistemas de recolha e triagem de resíduos e, mais ainda, porque todo o plástico
recolhido nos Açores tem de ser exportado para fora da Região, com elevados
custos de transporte. Ora cá está mais uma boa razão, concreta, financeira,
para reduzir a quantidade de plástico.
Mas talvez o
aspecto mais importante seja mesmo o da mudança das mentalidades. A ecotaxa vai
ser facultativa. Isto é: só vai ser paga por quem quiser comprar um saco de
plástico em vez de utilizar sacos reutilizáveis ou outra alternativa. No
momento em que na mercearia, no supermercado ou noutra loja qualquer nos
perguntarem: “não quer um saquinho?”, vamos parar para pensar um momento na
opção de querer ou não mais plástico nos Açores e no que a nossa opção
significa para a Região e, em última instância, para o planeta. Mudar os
comportamentos e aumentar a consciência ambiental é, afinal, o primeiro
objectivo da ecotaxa. Paradoxalmente, o seu sucesso será maior quanto menos for
cobrada.
A medida vai
provavelmente ser criticada, o que é saudável e natural em democracia. De um
lado, estarão os que não querem ver os pobres consumidores sobrecarregados com
mais uma despesa. Têm toda a razão, mas esquecem que essa será uma despesa
opcional e voluntária e que teremos todos a ganhar a com a redução dos custos
com os sistemas de recolha e tratamento de resíduos e, ainda mais, com a
redução do plástico no meio ambiente.
De outro lado,
estarão os que pensam que se deviam banir desde já todos os sacos de plástico e
os plásticos das embalagens dos produtos porque não basta reduzir, é preciso
erradicar o plástico do nosso ambiente. Também têm toda a razão. Só que, para o
melhor e para o pior somos uma comunidade, e temos, infelizmente, níveis de
consciência ambiental diferenciados. Só seremos tão ecológicos quanto o menos
ecológico dos açorianos. Para além disso, existe a razão muito prática que
qualquer partido que apresentasse uma proposta no sentido da erradicação imediata
a veria imediatamente chumbada pelas maiorias existentes, fazendo, no fim de
contas, recuar a causa que se pretendia ver progredir. Sem consenso social não
é possível fazer evoluir a consciência ambiental. É preciso primeiro ganhar as
pessoas para a ideia de que não precisam de sacos de plástico. E é justamente
isso que a ecotaxa tenta fazer.
A ecotaxa
mostra também a forma como, às vezes, a democracia até pode funcionar. Em
Outubro de 2013 foi analisada no Parlamento Regional uma petição, subscrita por
cerca de 300 cidadãos sobre a redução dos sacos de plástico nos Açores. Dando
sequência legislativa a essa vontade cívica, o PCP apresentou a proposta da
Ecotaxa, que recebeu contributos e propostas de outros partidos, acabando por
ser aprovada com os votos a favor do PCP, BE e PS, a abstenção do PSD e os
votos contra do CDS e PPM, que não estranho, mas lamento.
No entanto, não
há nenhuma lei, por muito boa que seja, que não possa ser mal aplicada e que
dispense a vigilância por parte dos cidadãos. A eficácia e acerto desta medida
vão depender em boa parte da regulamentação que o Governo irá produzir.
Precisamos de uma opinião pública atenta e interventiva para garantir que a
ecotaxa cumpra os seus objectivos. O trabalho dos cidadãos em relação a este assunto
ainda está longe de estar terminado, mas demos um passo na direcção certa.
09/05/2014


