A campanha para
o Parlamento Europeu tem passado discreta, longe do estrondo e animação de
outras eleições. Os maiores partidos focalizam a sua actividade apenas nos
cabeças de lista, sem mobilizarem as organizações locais, fugindo às acções de
massas, à campanha de rua e, mesmo, ao contacto directo com os eleitores, Mas
também a comunicação social dá ao assunto pouco mais do que a atenção
obrigatória, reservando para as notícias de campanha e declarações dos
candidatos blocos secundários, notícias breves e circunstanciais.
A campanha e as
suas mensagens ficam reduzidas aos espaços institucionais, longe do nosso
dia-a-dia, apagadas, distantes, a ponto de, infelizmente, não serem provavelmente
poucos os distraídos que nem repararam que no próximo Domingo, dia 25 de Maio,
os eleitores vão ser chamados a eleger os seus 21 representantes no Parlamento
Europeu. Das poucas certezas antecipadas, apenas a de uma enormíssima
abstenção, reflexo do desinteresse da generalidade dos portugueses.
Isto não sucede
por acaso. Este silêncio, este distanciamento, esta desmobilização interessa ao
PS, PSD e ao CDS, que são os primeiros a não se envolverem seriamente no
esclarecimento dos eleitores e que passam ao lado das grandes questões da União
Europeia, das grandes decisões que estas eleições colocam.
Tem razão o
estimado Carlos Faria, que esta semana escreveu nas páginas deste jornal que
nesta campanha pouco se tem falado de Europa. Não ouvimos nem Passos, nem
Seguro falar, por exemplo, do Pacto Orçamental, que obriga todos (ou na
realidade apenas alguns) os Estados-membro a cumprirem uma meta do défice
rígida, que os impede de investir no crescimento e no emprego. Não os ouvimos
falar do Tratado de Lisboa, que acabou com a nossa soberania sobre as 200
milhas da nossa Zona Económica Exclusiva. Não os ouvimos falar sobre a
liberalização forçada de serviços essenciais como correios e transportes. Não
os ouvimos falar sobre as regras europeias da concorrência que impedem, por
exemplo, que o Estado subsidie a Sata para garantir preços mais baixos nos
transportes aéreos. Sobre a verdadeira natureza desta União Europeia, sobre as
questões essenciais, em que PS, PSD e CDS sempre estiveram unidos, o silêncio é
profundo.
Este é um
silêncio que não vem de agora. PS, PSD e CDS decidiram sozinhos apoiar este
rumo para a União, sempre recusando consultar os portugueses sobre a integração
europeia, realizar qualquer referendo ou ouvir a sua opinião. Assim, também não
pretendem que agora os eleitores avaliem as suas decisões ou que se manifestem
sobre os destinos da UE.
Passos Coelho
só fala sobre a troika ter se ido finalmente embora, apesar de os sacrifícios
terem ficado, iguais ou piores do que antes e acusa a oposição de bota abaixo.
Vendo o tempo de antena do PSD, o argumento central parece ser o de que “ao
contrário de outros, o PSD não diz mal de outros”, uma tautologia interessante,
raciocínio circular que se contradiz a si mesmo, tal como a própria aliança
PSD-CDS. Mas sobre a União Europeia propriamente dita: nada.
Também José
Seguro se centra no que quer fazer quando for Primeiro-Ministro, com aquela
tranquila certeza do rotativismo, sabendo que mesmo que nada faça, o poder virá
inevitavelmente cair-lhe no colo pelo simples esgotamento do Governo PSD-CDS.
E, tal como Passos Coelho, para além do entusiasmo, que soa cada vez mais
artificial e chocho, de “estarmos na Europa” (que por acaso até é um continente,
espaço geográfico de onde não podemos sair mesmo que queiramos), sobre as
grandes opções políticas para a União Europeia: nada.
Quanto a Paulo
Portas, desapareceu quase completamente da cena política, sabendo que se não
estivesse agarrado ao PSD e tivesse de concorrer sozinho, também o CDS
desapareceria quase completamente. Há-de estar a gozar com alívio as suas
férias da ribalta, ruminando entre dentes o velho adágio de McArthur: “I’ll be
back”. Mas, também ele, sobre a União Europeia, nada diz.
PS, PSD e CDS
têm trabalhado activamente para a abstenção nestas eleições porque é um
resultado que lhes convém. A abstenção significa desistência, silencia o
descontentamento generalizado dos portugueses com esta União Europeia. O
desinteresse dos eleitores parece dar-lhes razão e força para manter tudo como
está, pois o significado político da abstenção é a ausência de protesto, a
anuência silenciosa de quem não tem razão de queixa. E, de facto, quem ficar em
casa no Domingo, perde todo o direito de se queixar.
