Na rotunda em
que termina a Rua de Lisboa, em Ponta Delgada, está erigido o Monumento à
Autonomia, composto por 9 colunas, envoltas num jogo de luz e água de belo
efeito. Só que, infelizmente, a bomba de água está avariada, por não ter sido
feita a manutenção necessária, e as águas paradas levaram ao surgimento de um
foco de mosquitos, sério risco de saúde e fonte de muito incómodo para quem lá
passa. O problema já gerou queixas da Junta de Freguesia de Santa Clara,
notícia no jornal e explicações do Governo que, como de costume nestas coisas,
diz que vai fazer um plano de recuperação, mas ainda nada fez de concreto. Esta
situação, aparentemente de pouca importância, de natureza local e distante da
nossa ilha, é verdadeiramente simbólica do Estado da nossa Região!
A Autonomia e o
seu Monumento têm, na verdade, percursos paralelos. A nossa Autonomia Regional,
conquistada pelo impulso vigoroso da participação popular do pós-25 de Abril,
também foi sendo progressivamente deixada ao abandono pelos cidadãos, que foram
desertando da participação cívica ativa, tratando a Autonomia como processo
acabado ao qual podiam virar tranquilamente as costas.
De 1976 para a
frente – e não por acaso – fomos esquecendo que a ideia de Autonomia representa
a uma descentralização democrática, uma ideia de pôr o poder de decisão mais
perto dos cidadãos, para que estes possam, para lá das eleições, opinar,
pressionar, exigir, influenciar os representantes eleitos. Mas, na realidade, a
maior parte de nós não fez nada disso e deixou-se de estar, sem sequer votar,
ou votando apenas nos do costume, sem querer saber ou preocupar-se com a forma
como os Açores têm sido governados.
Colhemos,
justamente, os benefícios da Autonomia: os apoios aumentados, os impostos
reduzidos, o direito à diferença e ao autogoverno no seio da República
Portuguesa, mas nada demos em troca e esquecemo-nos de lhe ir fazendo a
manutenção!
Assim, chegamos
ao dia de hoje, em que a mando da troika estrangeira a troika nacional (PS, PSD
e CDS) reduziu a nossa diferenciação fiscal em relação ao continente, como se
tivéssemos ficado subitamente mais perto do retângulo ou se os custos da
insularidade tivessem sido milagrosamente reduzidos! Chegamos ao dia de hoje,
em que o Governo da República se marimba nas suas obrigações para com os
portugueses dos Açores, encerra tribunais, finanças e outros serviços,
subfinancia a Universidade, recusa baixar preços de viagens aéreas, tenta
fechar a RTP Açores, desiste de fazer fiscalização marítima e deixa sem meios
de intervenção as forças de segurança, como se fossemos uma colónia pouco
lucrativa e desinteressante, na qual não vale a pena gastar dinheiro. Chegamos
ao dia de hoje, em que o Governo da República corta sem justificação as verbas
que nos pertencem e em que – simbolismo dos simbolismos! – o nosso próprio
Orçamento Regional tem de ir a Lisboa, receber o visto prévio do Ministério das
Finanças, antes de ser aprovado pelo Parlamento que elegemos aqui nos Açores.
Temos, definitivamente, uma avaria grave na nossa Autonomia!
Das águas
paradas do abstencionismo e desinteresse dos cidadãos tem-se erguido, também,
uma nuvem de mosquitos e outras criaturas voadoras, que surgem não se sabe de
onde, que incomodam, picam e nos vão sugando pouco a pouco o sangue. Aparecem e
desaparecem mais ou menos subitamente pois, como todos os mosquitos, são bichos
de vida curta mas que se reproduzem muito e, assim, também a nossa Autonomia,
tal como o Monumento, foi envolvida numa nuvem de insectos parasitários.
Os partidos do
poder, cujo único objetivo sempre foi e continua a ser o assegurar-se de que lá
continuam, enquanto mantêm tudo mais ou menos na mesma, foram gradualmente substituindo
a competência pela obediência nas suas fileiras. Procurando absorver tudo e
todos sob o mando do mesmo chefe, banalizaram a compra do voto, do apoio
partidário público ou, pelo menos, do silêncio dos que os podiam contestar. A
lealdade de quem concorre a cargos públicos deixou de ser devida para baixo,
para quem os elegeu, e passou a ser devida para cima, para quem os apadrinhou.
E, assim, temos
Deputados de ilha que votam contra os interesses dos seus conterrâneos, que
rejeitam projetos positivos para a sua ilha só porque vieram da bancada errada,
ou que se limitam a desaparecer no silêncio e nulidade das segundas filas
parlamentares, sem nada dizer, mas sentando-se e levantando-se sempre que o
chefe manda, sem falhar. Parecendo relativamente inofensivos, estes mosquitos,
no momento das grandes decisões sobre as questões que verdadeiramente nos
afetam, mordem e mordem mesmo.
Sobre o
Monumento avariado, o Governo diz que tem um plano para o reparar em breve.
Sobre a Autonomia avariada também. Mas desconfio que se não formos nós,
cidadãos dos Açores, a tomar em nossas mãos a reparação e a desinfestação
necessárias, tudo ficará na mesma e serão os mosquitos que continuarão a
mandar.
6 Junho 2014

