Nos anos 60, um jornalista
perguntou a Muhammad Ali se ele sabia onde era o Vietname, ao que o campeão do
mundo de boxe respondeu: “Claro que sei onde é. É na televisão!”. Esta atitude,
juntamente com a recusa de ir combater nessa guerra acabaram por lhe custar o
título mundial, que lhe foi retirado administrativamente. Mas Ali tinha razão.
As guerras do nosso tempo
chegam-nos sempre pela televisão, num pacote perfeitamente arrumado e ordenado,
contando uma estória completa e clara, com princípio, meio e fim. Nos média, a
narrativa da guerra está sempre perfeitamente organizada, os papéis de “bons” e
“maus”, claramente atribuídos. Os factos que nos relatam são, sistematicamente,
selecionados e interpretados sempre no sentido de confirmar essa estória, de
corroborar essa lógica, com pouca se alguma margem para discutir ou questionar.
No entanto, para o melhor e para o pior, a realidade é normalmente muito mais
complicada do que a estória que as televisões nos contam. A guerra na Ucrânia é
um exemplo claro disso mesmo.
A sucessão de acontecimentos que
levaram ao golpe de estado em Kiev, que derrubou um governo democraticamente
eleito, foi-nos sempre apresentada como um conflito entre os apoiantes da
“tirania pró-russa”, os maus, e os “combatentes da liberdade” que procuravam
uma aproximação à União Europeia, os bons. Assim as referências ao “Sector
Direito”, organização nacionalista radical, dominada por elementos de tendência
claramente fascista, que dirigiu os protestos na Praça Maidan, os seus cortejos
à moda das SS, com a exibição orgulhosa de cruzes suásticas, por exemplo, foram
completamente obliteradas do panorama informativo que os média nos serviram. Igualmente,
continua a silenciar-se o claríssimo cariz autoritário do governo de Kiev que,
para além de substituir políticos eleitos que sejam hostis ao novo regime, se
lembrou – com pouca criatividade diga-se – de ilegalizar o Partido Comunista da
Ucrânia, banindo do Parlamento qualquer discordância à sua atuação. Nada disto
cá chegou.
Da mesma forma, evitou-se falar
muito do pacote de austeridade que a Europa impôs à Ucrânia, em troca de um
empréstimo que não permite sequer o pagamento das dívidas já acumuladas pelo
país, fazendo com que as primeiras medidas do governo golpista fossem a redução
de salários, a flexibilização da legislação laboral e o encerramento de
serviços públicos. Uma receita que infelizmente conhecemos bem.
Quando várias regiões no Leste da
Ucrânia se recusaram a aceitar o poder golpista de Kiev e se declararam independentes,
a estória que nos contavam exigiu que tudo fosse atribuído ao velho urso
soviético, que estava de novo a tentar apoderar-se do mundo. Sobre as costas
largas de Vladimir Putin foram atirados todos os problemas da Ucrânia. Os
homens e mulheres do Lesta da Ucrânia que pretendiam influenciar as decisões
sobre o seu futuro foram apelidados de terroristas, as suas ambições de não
passar fome foram declaradas como anticonstitucionais e os seus lares
promovidos a alvos de artilharia e bombardeamentos aéreos.
Na estória que nos contam, no
meio da controvérsia sobre o papel da Rússia neste conflito interno, a Europa e
especialmente os Estados Unidos, aparecem como defensores da lei e da ordem
legítimas, sem que ninguém se pergunte se é legítimo apoiar uma ditadura só
porque ela serve os interesses da União Europeia e dos EUA, na sua “guerra por
procuração” com a Federação Russa.
E porque nos interessa o conflito
na Ucrânia? Porque a velha Europa de Kant e Sartre está a ser lenta mas
inexoravelmente transformada na nova europa de Merkel: Uma Europa moldada à
imagem e semelhança do que os EUA sempre tiveram de pior; Uma europa em que há
países e povos de primeira, que merecem e colhem todas as benesses do progresso,
e a chamada Europa dos PIGS (Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha), em que todos
têm acesso à internet mas há filas à porta dos hospitais, os medicamentos
faltam nas farmácias, as famílias não têm condições para educar os seus filhos
e cada dia mais pessoas passam fome e dormem em caixotes de papel na rua.
É esta a Europa que os cidadãos
de Donetsk rejeitam com todas as suas forças, pagando em sangue a audácia de
resistir aos planos de Obama e Merkel. Se bem que a Ucrânia nos pareça muito
longe, faríamos bem em não aceitar demasiado depressa os rótulos de “bons” e
“maus” que nos servem na TV, sob pena de, um dia, também podemos vir a ser
apelidados de “terroristas” apenas por querermos decidir sobre o futuro da
nossa terra; apenas por gritarmos basta!
Texto publicado no Jornal Incentivo
25 Jul 2014
25 Jul 2014

