Agosto corre ameno. Por cá,
aproveitamos o bom tempo, tiramos as barrigas de misérias e espantamos
preocupações e tristezas em calção de banho e bikini. Os problemas do país e da
Região parecem longe, reduzidos ao rumor do noticiário no rádio de pilhas que
alguém trouxe para a praia mas a que ninguém dá atenção. O sol dos dias de
Verão sem nuvens reconcilia-nos com a vida, que é dura todo o ano, mas que nos
parece amaciada e um pouco mais doce na calmaria das
tardes quentes. O céu azul relembra-nos que afinal vivemos num dos sítios mais
belos do mundo. Falamos com os muitos turistas que nos visitam e eles dão-nos
razão: os Açores são um paraíso!
Mas são um paraíso muito
especial. No paraíso dos Açores, no ano de 2014 muitos de nós continuam a não poder
dar-se ao luxo de serem quem são. Neste paraíso não somos, nem por sombras,
todos iguais sob o sol que, nascendo para todos – sim – não nos traz a todos os
mesmos direitos e a mesma dignidade.
Vem isto a propósito da
realização, na semana que vem, em Ponta Delgada, da terceira edição do Festival
LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgénero) Pride Azores, sob o lema
“Abrir armários, criar pontes”.
Trata-se de um evento importante
porque nos faz pensar sobre os limites desta nossa moderna tolerância social,
que afirmamos em toda a parte, mas que no fundo talvez seja mais estreita do
que gostamos que se note.
É verdade que perdemos o medo à
palavra igualdade e utilizamo-la com muita frequência e descontração, mas
esvaziamo-la demasiadas vezes do seu sentido profundo. Ser igual implica
entender, aceitar, estar próximo do outro. E, nesta nossa sociedade moderna e
tolerante, continuamos a olhar para a diferença como uma anomalia, um defeito,
uma distorção, continuamos a apontar os diferentes, a rir do que (de quem) não queremos
reconhecer como normal.
O Festival Pride Azores é um
desafio à nossa capacidade de aceitar a diferença, de a entender, e reconhecer
a igualdade. Ser igual implica compreender que muit@s de nós são ainda forçados
a viver vidas clandestinas ou a sofrer na pele a discriminação e a censura, às
vezes muda, às vezes explícita, mas que traça uma linha clara e aparentemente
intransponível entre os “uns” e os “outros”. Se queremos uma sociedade que
inclua todos, temos de criar pontes também com quem está mesmo ao nosso lado.
Este é um evento importante
porque abala (enriquece) a visão tradicional que a sociedade açoriana tem sobre
si própria. Não somos um monólito em que o papel de cada um de nós esteja
perfeitamente assente, padronizado e definido. Reconhecer que não estamos
presos a um modelo cristalizado de família e de sociedade, significa reconhecer
que todos somos livres de procurar a felicidade como
quisermos.
É preciso entender que a homossexualidade não
é uma moda nova que veio do continente ou dos states, mas uma característica
que, tendo sido trazida com os primeiros colonos portugueses, flamengos,
marroquinos e outros, por cá continuará enquanto viver gente nos Açores.
No entanto, se hoje qualquer
casal tem já o direito legal de trocar um beijo à vista de todos, quando esse
casal é do mesmo sexo, demasiadas vezes esse beijo suscita censura de um lado e
vergonha do outro. A mudança de que precisamos não se faz dum lado só. Não
basta que os “uns” deixem de discriminar os “outros”, nem que se fique em casa
a lamentar a falta de igualdade. É preciso sair do armário e ter a coragem de
derrubar a vergonha e de enfrentar a censura, sem medo de passar a ser tratado
de uma forma diferente. O Festival Pride Azores é isso mesmo.
Podemos, uns e outros, fazer dos
Açores um paraíso um pouco melhor.
Texto Publicado no Jornal Incentivo

